Eu e minhas paranóias
Em momentos (e foram muitos) de paranóia moderada, eu me senti perseguido, preterido, injustiçado e coisas do gênero. Aquela promoção negada ou dada pela metade, aquela designação para uma função gratificada que não veio, a viagem não autorizada ao exterior, ... todos sabem bem o que são essas coisas. Há pouco tempo, comentei com um amigo, acho que aqui mesmo neste blog, sobre uma festa de congraçamento de final de ano, eu recém-casado e morando fora (ou seja, a esposa teria que ficar sozinha em casa, enquanto eu ia a um jantar “festivo”, e ela não conhecia quase ninguém na cidade com quem pudesse ficar), mas a que teria de comparecer para a troca tradicional de presentes de amigo oculto. Por um excesso de ingenuidade ou abuso de confiança, perguntei se poderia ir acompanhado. A resposta foi, como costuma dizer o Min. Marco Aurélio, desenganadoramente ”não”. Que fiz? Tinha que ir, o local era público, levei minha mulher e nos sentamos numa mesa afastada esperando o momento da brincadeira. Na mesa principal, quem não autorizara que eu fosse acompanhado tinha a seu lado a mulher, os filhos, os cunhados, pais e sogros. Além da cunhada, que era sua secretária. De outras feitas, me candidatei a proferir palestras em eventos internacionais, um deles, aliás, no Rio de Janeiro, onde eu trabalhava (maio de 1980). Quanto a este, antes de qualquer iniciativa, procurei saber se haveria interesse da Embratel na participação de seus empregados. Soube que não, pois (nas palavras de quem tratava do assunto, o chefe da CI3) quem estava promovendo o evento “INTELCOM 80 – RIO” “eram uns picaretas”. Propus-me, por carta aos Estados Unidos, a falar sobre vários temas técnicos e, em particular, sobre a estrutura das telecomunicações no Brasil. Encaminhei sinopses de quatro palestras. Três delas foram aceitas, incluídas no programa oficial em fóruns e dias distintos e, evidentemente, realizadas (meu chefe imediato me deu “presença” e eu não precisei dar expediente naquela semana. Um dos dois melhores chefes que conheci na Embratel, em 30 anos e 10 meses). Entre novembro de 1979 (quando me propusera a fazer as apresentações) e a época de realização do evento, houve uma mudança de rumos, a Telebrás quis que a Embratel também fosse co-sponsor e, mais ou menos em março, circulou um memorando dizendo exatamente o contrário daquilo que eu ouvira em outubro, isto é, a Embratel queria ter o máximo possível de palestrantes. Voltei eu à CI3, não me lembro se Wallace Grecco ainda estava lá, e perguntei se minhas propostas deveriam ser reapresentadas como empregado da empresa. Outra vez me foi dito que não, minha participação, se ocorresse, seria como “avulso”, talvez nem devendo me referir a meu vínculo empregatício, sei lá. Tive que correr contra o tempo para escrever as palestras propriamente, para a inclusão nos anais, traduzi-las e pôr no Correio (tinham que estar nos Estados Unidos até 15 de abril, mais ou menos). E, por capricho meu, elaborar a apresentação, com recursos audiovisuais, transparências e slides, que era o disponível em face da limitação tecnológica da época. A uma semana do início do evento, chegou ao Brasil um dos coordenadores do programa técnico e foi marcada uma reunião no mini-auditório do 15º andar (ali perto da sala do DD) com os palestrantes selecionados. Ao comparecer ao encontro marcado, dei de cara com o Chefe da Embratel que duas vezes me dissera “não” relativamente á minha participação naquele evento “como um dos representantes da Embratel”. E fui indagado por ele sobre o que fazia ali, pois apenas palestrantes deviam estar presentes. E me disse mais: sua palestra não foi aprovada! Para sua imensa surpresa e visível desagrado, quem sabe constrangimento, mostrei, o tal coordenador americano mostrou e ele leu no programa que estava com ele desde alguns dias antes, aquelas minhas três palestras programadas. Como teria dito Zagallo, ele teve que me engolir. Muito tempo depois, eu soube que algumas palestras propostas haviam sido submetidas ao crivo da Diretoria da Embratel, não sei se pela Telebrás, e uma delas era precisamente aquela minha quarta, sobre a estrutura das telecomunicações no país. Não foi admitida porque me conheciam e sabiam que eu diria o que estava na minha cabeça, não daria recados ou aceitaria influência; melhor vetar. Seis meses depois, ocorreria o “INTELCOM 80 – LOS ANGELES”. A convite dos organizadores, elaborei o texto sobre a estrutura das telecomunicações no Brasil (que teria sido mais adequada se apresentada aqui, fez falta, foi quase um vexame, nas palavras de um Diretor da Telebrás que estava sentado a meu lado, durante um fórum em que foram apresentadas as estruturas de telecomunicações do Caribe, do Chile, da Arábia, ...., mas nada sobre a do país que sediava o evento. Tive ganas de dizer que eu propusera o tema – não sabia ainda daquele veto a que me referi antes). Pule de dez que não recebi autorização de afastamento do país para viajar aos Estados Unidos. Como também não fui autorizado a viajar a Paris, quando fui selecionado como um dos dois únicos terceiromundistas a falar em um colóquio internacional sobre comunicação, ao tempo em que Dr. Hering era DD. A razão alegada para a não-autorização era que “a verba era curta e já estava comprometida com uma viagem de Creusmar à Bélgica”, sendo que ele foi por conta da IBM, se não me engano, sem qualquer ônus para a Embratel, salvo seus salário.
Dava ou não para ter uma paranoiazinha?
Escrito por J.Celso às 17h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|