Chorando mais um morto meu
Dia 23 de maio de 1976, estava eu em viagem a Brasília (morava ainda no Rio) quando fui acordado por um interurbano avisando que meu pai morrera. Infarto fulminante, o segundo que ele sofria.
Passados esses tinta anos, pois, recebo uma mensagem de uma pessoa que eu conheço há mais de 40 anos e com quem não tenho oportunidade de conviver há muito tempo, talvez mais de três décadas. Ela diz que estou “muito parecido” com meu pai.
Bom, quem sai aos seus não degenera. O espelho me diz, diariamente, que a semelhança fisionômica, de fato, se acentua mais e mais a cada dia. E no resto?
Tivemos, enquanto ele era vivo, muitas diferenças, embora fôssemos parecidos no essencial: amantes da justiça, na retidão de caráter, até ingenuamente crédulos na boa-fé do próximo, e devotados integralmente aos nossos familiares. Ele era capaz de dar uma boiada numa briga em defesa de um dos seus. Tanto quanto eu, teve uma namorada de mais de 40 anos (eu ainda chego lá!).
Cumpriu a saga do órfão precoce, tendo sido criado por um tio padre, de quem foi sacristão desde a mais tenra infância (algo como 7 anos), passando por seu internato em um colégio dirigido por outro padre que também exerceu enorme influência na sua formação intelectual e moral. Experimentou a juventude num centro do tamanho de Recife dos anos 30, época em que foi colega de alguns futuros expoentes, como Álvaro Lins, que chegou à imortalidade da ABL. De volta à província (Açu – RN), enfrentou o choque provocado pela mudança de ambiente, que não superou por inteiro durante muito tempo. Sua vivência naquele outro “universo” cultural fizera dele uma sumidade, um paradigma, um referencial para a intelligentsia local, que produziu efeitos ao mudar-se para Natal, onde não logrou integrar-se à intelectualidade daquela capital.
Foi boêmio por opção e prazer. Não precisou cantar, como Nélson Gonçalves, “aqui me tens de regresso” porque dela nunca se afastou de verdade. Quando muito, tirou férias forçadas, por exemplo, durante a Copa do Mundo de Futebol de 1962, ocasião em que se recuperava de uma úlcera na córnea e nem pôde comemorar (bebemorar) o bicampeonato.
“Cometeu” inúmeras glosas ao longo de sua vida, mas somente após sua morte parte delas foram publicadas (Glosas de Hélio Neves de Oliveira, 1980). Trata-se de um magro opúsculo (70 p.) eminentemente emocional, com depoimentos familiares e de alguns poucos dos muitos amigos que espalhou na vida.
Moacir Medeiros diz “sua presença ainda enche todos os espaços em volta, impregna de amor os corações, transborda para fora de você mesmo, domina a sala como se você fosse dez, ao mesmo tempo”.
De Cláudio Gurgel, vem um “Recado” inspiradíssimo deixado três anos antes de sua morte, em forma de soneto:
“Mestre Hélio, enfim parto sem poder revê-lo,
querendo vê-lo e sem querer nada partir.
Conheci de vocês um tal e qual desvelo
que não sei se volto à casa ou a deixo aqui.
.............
E longe de ser exagero o que lhe digo,
jamais eu vi sob tais barbas de ancião
jovem tão jovem como tem você consigo.”
De Nathércia, uma grande amiga sua, a profecia: “você não morreu, Hélio. Apenas passou para um outro tipo de vida, porque pessoas como você não morrem nunca”.
Outra grande e significativa identidade a vida nos trouxe mais tarde, ou seja, a religiosidade, a fé renascida. Naquele 23 de maio de 1976, ele morreu quando voltava pra casa comungado e em paz com Deus.
Reproduzo, por fim, o que escreveu sua irmã, Maria Olímpia: “Cedo nos deixou .... deixando além da falta da sua amizade, a falta do seu temperamento brincalhão - cheio de anedotas e piadas -, a falta do seu amor dedicado à família, a falta da sua inspiração poética, a lacuna impreenchível da sua presença, a presença de sua saudade.”
Escrito por J.Celso às 15h44
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