O Brasil e as eleições de 2006
O Brasil é, de fato, um país paradoxal, de contrastes e complicadíssimo de se entender. As diferenças variam entre limites praticamente extremos. E sobretudo, por menos que queiramos admitir, temos imensas semelhanças com países como a Índia: constituímos castas, camadas tão distintas e isoladas que nos fazem ficar cegos para o que está abaixo de nós e só termos olhos para ver (e invejar ou almejar) o que esteja acima.
Minha adolescência, em Copacabana desde os 15 anos, ensejou a que eu desconhecesse outro mundo real, ou outros mundos reais. Sempre estudei em colégios particulares, ainda que não fossem os freqüentados pelas elites (isso mesmo, são várias), e mesmo ao ingressar numa universidade pública, a Universidade do Brasil (hoje, UFRJ), sou levado a reconhecer que somente chegavam lá os privilegiados que tivessem tido a ventura de uma boa escola. Talvez metade de minha turma de engenharia fosse oriunda do Colégio Militar e de colégios como o São Bento e o Santo Agostinho. No máximo (escola pública), do Pedro II.
Não era meu caso. Porém pudera fazer um cursinho que, ao contrário do que ocorre nos últimos vinte ou trinta anos (escapei por pouco), desde que inventaram os vestibulares unificados e com questões de múltipla escolha corrigidas por computador, objetivavam ser reforço e revisão da formação colegial. Passados mais de 30 anos, em 1993, fiz outro vestibular com aqueles conhecimentos adquiridos no Colégio Rio de Janeiro e no COS. Os cursinhos daquele tempo não formavam robozinhos de fazer cruz nas perguntas que iam cair e ponto. As provas eram discursivas e cada faculdade fazia o seu exame.
Por isso é que não me surpreendo muito quando leio que nos grotões a popularidade do governo Lula está acima dos 60%, enquanto nos grandes centros há certa perplexidade com esse fato. Se as eleições dependessem apenas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belém, Natal e outras capitais ou cidade com mais de, digamos, 200 mil habitantes (as que têm segundo turno para os cargos de prefeito), provavelmente Lula não seria reeleito. Entretanto todas as prévias dizem o contrário, e a luta desesperada do PSDB/PFL é levar a disputa para o segundo turno, nem que seja às custas de estimular candidaturas inviáveis, como a do PSOL, do PDT e até do PMDB.
Ouvi, faz quase um ano, na sala de espera de um dentista, de um servidor da Câmara dos Deputados, que prefeitos e políticos de cidades menores, do interiorzão, estavam extremamente satisfeitos com as ações do governo federal, pois antes nunca chegara tanto dinheiro até eles. E nós, das metrópoles, desconhecemos esses detalhes. Só sabemos, com nossa miopia circunstancial (ou conveniente?), o que está à nossa volta. Aquela gente não se guia pelos noticiários da TV (de que assiste apenas as novelas, em sua expressiva maioria) ou sequer lê jornais. Guia-se pelo estômago, melhor alimentado; pelo abastecimento de água e luz, redes de esgoto, educação, saúde; quiçá, emprego.
Tivemos governos de intelectuais, de imortais e príncipes, experimentamos ciclos de desenvolvimento social correspondentes e proporcionais à época (ah, a relativização dos tempos!), jamais imaginamos que um governante sem a educação fundamental concluída – ainda ontem ouvi o presidente dizer que só cursou até a 4ª. série, além de um curso no Senai – pudesse fazer um governo, no âmbito nacional, mais adequado a diminuir as diferenças regionais, sem ser voltado somente para as elites dirigentes de sempre (ainda que possa também beneficiar esta ou aquela categoria, como a dos banqueiros).
Efetivamente, não é fácil entender ou aceitar que um partido de trabalhadores e ideólogos possa dar certo naquilo que os de anel no dedo e capelo, ou fardão, não foram tão bem sucedidos. Não vivemos o Brasil real, mas o Brasil imaginário que nos cerca, como dizia o Bode Orellana, o Sul Maravilha. E por ele projetamos o que é governar bem ou governar mal. Será que a onda de corrupção revelada e desmascarada não foi também conseqüência de um governo que permite, pela ação da polícia e do Ministério Público, que seus podres venham à tona, deixem de ser jogados para debaixo do tapete ou vá parar em contas numeradas na Suíça ou em paraísos fiscais?
Escrito por J.Celso às 06h16
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