De poeta e de louco, todos nós temos um pouco
Há poucos mais de 15 dias escrevi sobre os 30 anos da morte de meu pai. E falta sempre dizer muito quando se escreve de afogadilho, sob alguma intensa emoção.
Dele, herdei bem mais que os traços fisionômicos, alguns genes, quem sabe o calibre fino das artérias que me acarretou um infarto agudo do miocárdio aos 38 anos. Exemplos de amor, de perdão, do in dubio pro reo, do não julgar para não ser julgado, de caridade, de solidariedade, da fraternidade cristã que tanta falta faz neste nosso mundo cada dia mais selvagem.
De outra ordem, tive o exemplo de guardar papéis do momento, conservar escritos e registrar sentimentos vários “reduzidos a termo” ainda que (ou principalmente) sob o desequilíbrio ou a instabilidade da circunstância. Com essa mania, fui amontoando de forma suficientemente desorganizada, compondo a baguncinha gostosa de que falava um antigo professor de Química, Tito Urbano da Silveira. E, quando tenho tempo pra jogar lixo fora, diminuir a matéria prima, alimento e iscas pra baratas e traças, deparo-me com preciosidades, com manuscritos de poetas potiguares como Esmeraldo Siqueira e João Lins Caldas.
Desse genial e ensandecido Caldas, que poderia ter sido um dos maiores poetas brasileiros e permanece praticamente desconhecido fora do círculo dos antigos e ainda remanescentes (que se vão indo aos poucos) que o conheceram, existe uma coletânea, Poética, publicada em Natal, pela Fundação José Augusto, em 1975 e, creio, reeditada uma vez.
Dos manuscritos seus que guardo, herança dos guardados de meu pai, encontro jóias como esta:
O pobre me deu uma esmola de Deus te favoreça.
“Deus te favoreça!”
favoreça-me Deus com essa esmola do pobre
Ou
À vida pedi, como quem pede um beijo na face,
Que ela, a vida, não me negasse...
Passou a vida, não me quis ver....
- Ora, morrer....
Morrer é a vida de que se nasce....
E mais este outro:
Na noite eu serei o amigo.
Como o vento, na noite,
Como a estrela, na noite,
Na vida eu serei o amigo.
Mas perdoa ao amigo,
Uma noite haverá, e daí para talvez mais nunca em nenhuma outra noite,
Em que eu já não serei o amigo.
Morreu em maio de 1967, sozinho em seu tugúrio. Eu o encontrara uns três meses antes, quando passava férias em Açu-RN, e ele me revelara seu mais recente projeto literário: publicar-se`(permanecia ainda inédito) em edição trilíngüe: português, inglês e francês.
Escrito por J.Celso às 10h18
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