Precoce ou chato?
Vez por outra escrevo aqui sobre meu Rio Grande do Norte natal, sobre o quanto guardei de uma infância feliz ali vivida (seguida de uma adolescência passada no Rio de Janeiro, desde os 15 anos) e, também, sobre as marcas deixadas por um ambiente em que a poesia sempre esteve a meu redor. Nascido no Açu, terra dita dos poetas, descendendo de alguns deles, lembro-me de uma “precoce” (ou não?) atração por tudo que representasse poesia e poetas, ao tempo em que morei em Natal. Fui como que testemunha ocular de movimentos literários, digamos, a partir de 1955 (contava eu dez anos). Acompanhei o surgimento de vários deles, jovens ou nem tanto poetas locais, como Nei Leandro de Castro, Newton Navarro, Sanderson Negreiros, Berilo Wanderley, Luis Carlos Guimarães, Augusto Severo Neto, Zila Mamede e Myriam Coeli, uma celestial figura que Deus fez minha tia afim.
Em nosso quintal, quantas vezes reuniam-se, por variados motivos, a intelligentsia da província em recitais que invadiam a noite. E eu, resistindo ao sono, me embevecia e babava.
Além desses poetas “da terra”, junto aos quais eu tentava estar se a ocasião surgisse, havia aqueles dos quais fui conhecendo a obra (ou parte dela) pelo que ouvia, sem lhes conhecer as feições. Um desses últimos, foi Jorge Fernandes, autor de um poema que me causou impressão profunda, se não a maior delas todas.
Consta em seu Livro de Poemas (Fundação José Augusto, RN, 1970) que se trata apenas de um fragmento, porém para mim sempre bastou e valeu como poema completo:
Deus lembrou-se de mim, lembrou-se
Ungindo-me de bondade e de amor!
Martirizou-me pra tornar-me santo
E deu-me asas pra fugir da dor....
Em 1959, realizou-se um evento que levou a Natal muitos escritores de renome ultra-regional, dentre eles, Eneida, Jorge Amado, Carlos Penna Filho e vários outros que caíram no meu esquecimento. Estive colado a eles enquanto permaneceram na capital potiguar, não perdi um lance, uma palestra, um almoço, um passeio. Eu era muito intrometido e enxerido mesmo desde pequeno.
Escrito por J.Celso às 15h47
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