Mais lembranças da infância e da adolescência
Cinara, filha de Zaíra e Félix Marinho, me manda um e-mail do Canadá, que leio ao amanhecer. Em tom familiar, “reclama” que venho pouco aqui escrever alguma coisa nova, e ela, distante, não encontra novidade ao acessar este meu blog. De fato, já comentei isso aqui, a culpa é minha mesmo, não preciso procurar desculpas.
Aproveito o ensejo para, finalmente, pôr nestas reminiscências uma lembrança que me volta à memória vez por outra, embora não seja capaz de precisar datas. Deve ter sido entre junho de 1960 e meados de 1961. Eu morava na Av. Copacabana perto da Xavier da Silveira e Moacir Medeiros, tio de Cínara, ainda morava na Figueiredo Magalhães. Um dia, Félix chegou de Natal com um pacote de garrafinhas de cerâmica contendo cachaça, com rótulos reduzidos das grandes marcas do nosso Rio Grande do Norte, inclusive “Sumaré”, que era destilada pelo pai dele, Esaú, como relatei no livro com as glosas de papai, a preferida de Hélio (“Por descuido de Esaú / não se bebe Sumaré”; houve uma entressafra!).
Pois bem, isso que depois tornou-se artigo tão comum e encontradiço nas lojinhas de suvenir, naquela época, constituiu uma novidade. Saímos os dois, Félix e eu, pelas calçadas de Copacabana, entrando em cada loja para ele mostrar seu produto, a garrafinha-miniatura, aos donos e oferecer para que ficassem em consignação, ao menos. No primeiro momento, foi pequena a receptividade e recordo apenas de uma loja na Av. Atlântica, quase esquina de República do Peru, cujo proprietário encantou-se, e, se não me engano, foi o primeiro freguês que Félix encontrou. Fui indagado se não gostaria de ficar como seu representante na praça e, sei lá por quê (talvez pela idade), não fechei negócio, mostrando desde então meu tino de comercial nenhum. Nem pareço filho de Dolores. Desconfio que deixei de ganhar uma boa grana.
Conheci Félix em Natal, primeiramente no aeroporto, onde ele trabalhava no que hoje, acho, é Infraero, mas podia ser DAC. E o aeroporto de Parnamirim, como quase tudo para um menino de 10 anos, digamos, era loooonnnngeeee.... toda vida. Só se ia ali para trabalhar (caso de Félix), embarcar ou receber parente. Aliás, uma das vezes eu fui, em janeiro de 1957 para a chegada do Presidente JK, ora vejam só (eu já disse que era metido e enxerido). Não me perguntem como, mas entrei na Base Aérea, estava na pista e fui o segundo potiguar, naquela visita (a única dele ao Estado enquanto foi Presidente), a cumprimentá-lo, em seguida a Dinarte Mariz, o Governador. Imagino que todos acreditavam que aquele pirralho de paletó e gravata fosse filho de alguém importante, depois do desembarque, de alguém da comitiva. E JK deve ter pensado que eu filho ou neto de Dinarte. A conseqüência imediata foi JK pôr a mão nos meus ombros e carregar-me para o palanque de onde assistiria ao desfile da tropa em sua honra, prestando continência pra “nós”. E outra vez quase fui, em 1958, quando anunciaram haver problema de teto para a seleção campeã do mundo fazer escala em Recife, sendo a alternativa pousar em Natal (alarme falso).
Natal dos anos 50 acabava no meio da “Pista”, na “corrente” (onde havia um posto fiscal de parada obrigatória). Além daquele ponto, era viagem intermunicipal ou interestadual, não havia ônibus urbano, mesmo porque uma das zonas de meretrício ficava por aquelas bandas, com as “pensões” de Rita Loura e de sua colegas de profissão. Somente Maria Boa ousava ter seu prostíbulo no centro da cidade, na continuação da rua Santo Antônio, do palácio arcebiscopal de D. Marcolino, pertinho lá de casa (no Baldo). Ponta Negra era um local para piquenique programado com antecedência ou de veraneio. Ir à praia em Pirangi era uma viagem de várias horas, e de caminhão ou veículo com tração. Íamos para passar o dia lá, e tínhamos que levar tudo, pois não havia qualquer apoio no local, nem uma mísera barraquinha para vender um coco verde ou um peixe frito. Quanta diferença constatei quando estive em Natal há um ano, tudo muito mudado, todos aqueles fins de mundo estão no “meio” da cidade, tão dentro de Natal ficaram Ponta Negra, Capim Macio, Cotovelo e Pirangi.
Será que é a isso que chamam progresso?
Escrito por J.Celso às 17h09
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