Reminiscências de um sábado
Quem me dá a satisfação de ler o que escrevo neste blog, ainda que nem sempre deixe registrada sua passagem, sabe que eu sou um confesso e incorrigível nostálgico. Há os que entendem não ser isso uma qualidade, se não for um defeito.
Recentemente, recordei um poemeto (fragmento preservado) de Jorge Fernandes (“Deus lembrou-se de mim, lembrou-se...”) e falei sobre minha profunda identificação, ou o impacto que me causa sua leitura ou relembrança.
Não tenho de me queixar, embora a vontade de ter sempre mais e mais seja inerente à natureza humana. A vida me deu, por obra e graça do Pai, por sua imensa e infinita misericórdia, “mais do que eu mereço”, é o que costumo dizer, há muito tempo.
De tanto repetir, quando me pergunta(va)m “como vai? tudo bem?”, houve ocasiões em que me questionei se aquela minha resposta não estava atraindo maus momentos ou fases adversas, e eu me perguntava se tais dissabores ou crises existenciais não seriam uma espécie de “compensação” pelo que de bom, ótimo ou maravilhoso costumeiramente me sucedia (ou eu assim considerava). Se não seria mais um ensinamento para que eu mantivesse meus dois pés no chão, ambicionasse menos, me conformasse mais. Não e fácil preservar “o cuidado de ter sempre consciência reta, exterior modesto, conversação edificante e procedimento regular”. É muito difícil agradecer. Normalmente, achamos que não foi acréscimo ou exagero ter o que temos, pois apenas “merecemos”, mesmo sem saber por quê. Tenho mais do que mereço é uma expressão bem mais verdadeira do que admitimos.
Entre tantas outras mil coisas que me enriquecem a vida, sobressaem as amizades adquiridas e conservadas, preciosos prêmios que recebi, muitas delas sem fazer força e quando menos esperava. Há uma lição cristã segundo a qual “quando o aluno está pronto, o mestre aparece”. De fato, reconheço que há uma hora certa para cada coisa. A mesma leitura não se repete, pois em determinadas circunstâncias suas conseqüências são distintas.
Em 1982, mal chegado a Brasília, cedido à Telebrás, “aconteceu” de também vir fazer parte do Programa de Intercâmbio de Experiências que me trouxera alguém que se tornaria uma inexcedível “guru” de todos nós da Divisão em que ambos fomos trabalhar. Coincidência? Desígnio divino? Sorte? Fatalidade? Compromisso espiritual? Resgate cármico? Definitivamente, não foi por acaso que Waldecy Costa Japiassú passou a fazer parte de minha vida, a me abrir os olhos e ministrar aulas, notadamente pelo exemplo.
Japiassú, que cruzara meu caminho em 1968 sem que nos déssemos conta um do outro, fez um trajeto completamente afastado do meu, e nunca mais nos víramos, sequer casualmente, debalde as incontáveis reuniões, seminários, simpósios, congressos e encontros que as empresas de telecomunicações promoviam, enquanto ele também esteve na Embratel (Chefe do Distrito de Operações de Brasília, CE103) ou sendo ele um profissional respeitado da Telebahia. Em 1982, a Telebrás nos reuniu. Cito Japiassú porque quantas vezes ele me alertou para que eu me desapegasse do passado. Não sei se pregava o esquecimento proposital, intencional, forçado, mas aconselhava-me a não ser tão saudosista; não relembrasse tanto e tantas vezes o que passara; não insistisse em recorrer à memória do que já fora para imaginar o que seria ou deveria ser; vivesse mais o hoje do que o ontem. E, acho, essas aulas magníficas, felizmente, não foram inteiramente esquecidas, por menos que hajam produzido efeito.
Amigos são aqueles com quem nos identificamos de alguma maneira e com quem gostamos, ou gostaríamos, de conviver. Lembro-me de alguns do tempo de minha meninice, os quais não vejo há dezenas de anos sem que a estima haja diminuído. A vida nos fez trilhar caminhos diversos. Há os que ficaram no Rio Grande do Norte (decerto, muitos nem se lembram tanto de mim quanto eu deles: Décio e Hugo Paiva, José Soares, Marcos Tassino, Marcos Emílio, Cláudio Emerenciano, Gilson José, Carlos Alberto, Fernando Leitão, ... estou viajando no tempo, regressando aos anos 50). Um deles, Nei Lopes de Sousa, reencontrei faz cerca de 1 anos, e não me reconheceu fisionomicamente, mas demonstrou lembrar, ao me apresentar (faláramos uma vez ou duas pelo telefone anos antes).
Havia as meninas, cuja cultura de então não permitia que fôssemos “amigos”, e que também ficaram na memória. Como eu gostaria de ter notícias de Rejane Barroca, Rita de Cássia, Dilma, a alegre turma do Reino da Urubolândia do Ginásio São Luís, de Natal! De todas, encontrei Rejane no dia do trote, quando ela passou no vestibular de Medicina; Dilma no aeroporto Santos Dumont (Rio), quando ela voltava a Natal de um encontro de Bandeirantes; e Niéli, também no Rio, algumas vezes, por freqüentarmos o Clube Federal. Esgotei minha última gota de esperança de reatar contato com esses e essas ex-colegas quando criei uma comunidade no Orkut que não deu nenhum retorno (extingui a comunidade depois de dois anos de busca inútil).
Francisco Marques é outro amigo desde 1954 ou 56, pelo menos. Almoçamos juntos em 1994, em Brasília e nos falamos por telefone quando ele promovido a CMG, se não me engano, em dezembro de 96 (quase no aniversário dele). Archibald Saint Clair Pires Vieira, igualmente, foi um de quem fui muito amigo desde a infância, e com quem convivi no Rio quase sempre por circunstâncias ligadas a Francisco Marques (por exemplo, suas vindas de Angra dos Reis; sua formatura na Escola Naval; seu casamento; etc.).
Para que não reclamem das amizades mais recentes, há os ex-colegas ou contemporâneos da ENE (63-67), dos quais muitos encontrei na vida profissional e vários nos deixaram precocemente (Kogan, por exemplo). Quero deixar esse registro de hoje com o espanto que quase provoca um infarto em Sady Justiniano da Silva Souza Filho ao dar de cara comigo no aeroporto de Brasília: ele, se recuperando do susto, ainda lívido, confessou: pensei que você tinha morrido naquele infarto sofrido em 83.
Escrito por J.Celso às 12h11
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Achaques da idade
Depois de velho, o médico pediu que eu fizesse uma videoscopia, o que fiz dia 21/8. Durante o exame, foram retirados três pólipos a requererem exame anátomo patológico (biópsia), cujo resultado recebi hoje.
Ei-lo, restrito ao essencial:
“o exame revela glândulas com túbulos alongados revestidas por células epiteliais absortivas com discreta cariomegalia se dispondo em pseudoestratificação com diminuição das células mucíparas de permeio. Diagnóstico: ausência de malignidade, adenomas tubulares associados a alterações displásicas de baixo grau.”
Eu nem desconfiava que tinha tanta meleca dentro de mim: cariomegalias, células mucíparas, pseudoestratificações, adenomas e outros palavrórios que o pobre mortal sequer desconfia o que querem dizer. Falta-me Sandrinha para traduzir em língua de leigo, de engenheiro ou de advogado (as que suponho que falo).
Pelo visto, vou continuar tendo que me preocupar somente com as taxas de LDL, as quais estavam baixas em junho e só vou saber se voltaram a subir em outubro.
Minha velhice não é tão desagradável assim. A mulher e as filhas me gozam quando eu falo na protocinética que me atrapalha os movimentos ao sair de sentado. E a cervejinha santa de quase sempre não me afasta de ser “gotoso” de quando em vez.
O coração não tem criado caso desde 1983, a ponto de nem mesmo tomar remédio de uso continuado para o bichinho sem estepe. Se palpitar fora do tom ou do ritmo, mando umas gotinhas de homeopatia pra dentro e deixo rolar. Tem resolvido. Uns trigeminismos ou arritmias ocasionais já estão sob controle, não assustam mais.
Escrito por J.Celso às 15h53
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