Cresci ouvindo e lendo que “o homem é um animal político”. Talvez por isso, procurei jamais perder a oportunidade de opinar, acreditando naquele ideal grego de democracia, segundo o qual cada um, junto a seus iguais, faz o todo, sendo o todo a expressão da vontade da maioria, considerando a manifestação de cada um com igual peso.
Suponho que, muitas vezes, falei quando deveria ter me mantido calado, provavelmente me deixando levar pela sensação de que eu “tinha algo a dizer”, e que o que eu queria dizer “era importante”, poderia ser “útil”, quem sabe, mudar a convicção de outros e prevalecer.
Um fato que conta a meu favor, acho, é que nunca me vangloriei de estar com a razão. Por vezes me surpreendi ao ouvir ser me atribuído o mérito de alguma coisa. Confesso que nem sempre eu me considerava “o” responsável pela proposta, e procurava demonstrar que o mérito não era meu, ou somente meu (logicamente, idéia bem-sucedida; é facílimo imputar, e apontar, a outrem a culpa pela idéia que leva a um resultado desastroso e, nesse caso - do desastre -, não adiantaria tentar explicar nada, pois não seria ouvido, levaria a pecha de culpado e mais a fama de mentiroso ou covarde, incapaz de assumir meus atos, sei lá. Felizmente, isso não ocorreu comigo, que eu me lembre).
Há, por outro lado, uma circunstância que gostaria de comentar. Já devo ter me referido alguma vez na famosa carta do Marquês de Pombal a um militar que, em 1761, foi nomeado Capitão-mor do Maranhão, e pedira “instruções no método de governar” àquele eminente político português. A cópia foi-me dada pelo querido Gercy, que a recebera de um antigo comandante. A carta tem o sugestivo título “O gênio dos povos e o método de governar”, reunindo sábios ensinamentos que, desgraçadamente, nem mesmo quem os conhece põe em prática.
Reproduzo alguns:
1- “quem governa, se não pode conservar a saúde do corpo misto da república, por causa de um membro podre, justo é cortá-lo, para não contaminar a saúde dos demais”
2- “os aduladores não se conhecem pelas roupas que vestem, nem pelas palavras que falam; quase todos os que os ouvem são do gênio do rei Achab, que só estimava os profetas que lhe prediziam coisas que o lisonjeavam. Quase todos os que governam querem que os lisonjeiem, e sempre ouvem com agrado os elogios que lhes fazem. Desta espécie de homens – ou de inimigos – em toda parte se encontram; aparte-os pois de si como veneno mortal”
3- “é preciso muito tempo, e muito jeito, para emendar costumes inveterados, ainda que sejam escandalosos. Contudo, é preciso desterrar abusos e destruir costumes perniciosos, em benefício da Justiça e do bem comum, e que seja com muita prudência e moderação, que o modo vence mais que o poder, ensinava Aristóteles”
4- “são os auxiliares íntimos inimigos domésticos, quando não desleais; se não são como deviam ser, participam para fora o que sabem de dentro e, depois, passam a dizer dentro o que não se sonha fora. E mais é que, como são tidos por leais e verdadeiros, acham grata atenção no que contam, prejudicando muitas vezes com a mentira a inocência do acusado, por vingança dos seus particulares interesses”.
Nosso país é um celeiro em que, desde a Colônia, registra-se corrupção.A grande diferença está em saber roubar, usar luvas brancas (Arsène Lupin), não deixar as digitais. Ouvi, em 94, um conselho que não segui, me deixei enganar ou fui mais um encantado pela sedução de um falar cativante. Eventualmente, imaginei que teria alguma vantagem pessoal, mas caí do cavalo ao terceiro dia. A média distância inevitável, pude saber de certas coisas que eram feitas, mas eu não podia denunciar porque não havia provas, as luvas brancas estavam sendo usadas.
Brasileiro é um eterno esperançoso e tem a memória volátil, costumo repetir. Mas eleições que se avizinham, como em poucas anteriores (e eu as acompanho desde 1955, ainda de calças curtas), vivemos a crise de candidatos, não só pra Presidente. Uma andorinha só não faz verão, e que adianta um Pedro Simon ou Jéferson Peres ou Eduardo Suplicy, como que adiantava Darcy Ribeiro, no Senado, onde “90% levam uma beirada de cada verba”? Chamo-os de loucos mansos, para não dizer quixotescos.
Na Câmara, talvez (tenho minhas dúvidas), existam vestais, gente impoluta e não corrompida, que ainda não descobri. Constituiria uma minoria. Seria esmagada e desapareceria na imensa quantidade dos que pregam e praticam exatamente o contrário, o “venha a nós o vosso reino” na acepção literal (primeiro o meu; se sobrar, para os realmente necessitados).
O espaço é pouco, e hesito em demonstrar ânimo. Não apregôo candidaturas, para não parecer que as endosso. Prefiro não me arriscar de novo. Não sugiro nomes nem mesmo à esposa e às filhas. Deleto as propagandas que me mandam. O voto é uma decisão pessoal, secreta, pelo menos no Brasil. Ninguém poderá dizer que votou (ou deixou de votar) em A ou B porque eu recomendei.
Ainda dou graças por não ter visto Mário Covas eleito em 89, por medo de ter me decepcionado com ele (foi o último, se não o único, que me empolgou e me levou às ruas de broche na lapela e noites em campanha).