Recordar é ... sofrer
Na sexta-feira passada, enquanto fazia hora para ir ao aeroporto buscar minha caçula, recebemos um telefonema dela, que estava em Belo Horizonte: acontecera um acidente com um avião da Gol, companhia pela qual ela ia viajar pra cá. A internet estava online, e eu pude ficar lendo as notícias até as 22h30 (o site da Infraero estava fora do ar ou, pelo menos, “inacessável”, do que resultou eu chegar ao aeroporto bem antes da chegada do avião dela).
O aeroporto virara um circo, com emissoras de TV e equipes de plantão a gravar e regravar chamadas a serem inseridas na programação como edição extra. Circunstancialmente, dei de cara com um grupo de servidores da Infraero que estavam indo embora. Troquei idéias com um ou dois deles sobre as hipóteses que teriam causado o choque dos dois aviões, o pouso de emergência de um e, até então, o desaparecimento do outro. Fiquei sabendo que as buscas estavam suspensas porque duas varreduras feitas pelo satélite não haviam produzido qualquer resultado positivo, e a escuridão serviria apenas para gastar combustível em vão (a claridade era indispensável para a localização do, já se acreditava, avião caído – no mínimo, pousado com bastante estrago).
Os repórteres não confiaram na informação que eu dei (buscas suspensas) e continuavam dizendo que as buscas não iam parar a noite toda.
Ao chegar em casa, continuei na internet, mesmo porque ia haver o treino final da Fórmula 1 da China às 03h00. Perto das 02h00, li a relação dos passageiros do vôo da Gol, e tomei um susto: entre eles, estava uma pessoa conhecida, que trabalhara comigo em 1994, a quem me afeiçoei, por considerá-la uma das melhores, se não a melhor, de minhas auxiliares diretas.
Graça Rickli era, tal como eu, requisitada de uma paraestatal (Serpro, se não me engano). Trabalhávamos na administração direta praticamente pelo mesmo salário recebido de nossas empresas, em conseqüência do chamado “abate-teto”. No meu caso, o DAS 5 significava R$ 21,00 (VINTE E UM, sim) por mês a mais. Não me fez falta quando o perdi, no terceiro dia de governo tucano, provavelmente porque eu fui considerado incorruptível, sei lá. Um ou dois meses depois, eu soube que Graça também fora embora (talvez pelo mesmo motivo). Não convinha aos que estavam assumindo o poder ter em posto-chave alguém que fosse criar entraves a seus planos, que Serjão confessou depois ser “ficar 20 anos no poder”. Não seria com meu voto, de novo.
Não foi outro o motivo de comprarem deputados e senadores a torto e a direito para aprovar tudo o que lhes desse na telha, desde a privatização desgovernada até a famigerada reeleição (era ou não um mensalão? Apenas eles sabiam fazer tudo com luvas brancas, sem deixar impressões digitais). Aliás, eu nunca entendi qual o motivo de não ter sido mostrada de novo, e devidamente explorada, uma entrevista de FHC para a TV, ao ser eleito, dizendo que “4 anos são suficientes”.
Lula, não é novidade, é despreparado para o exercício do alto cargo em que foi posto pela esperança de milhões de brasileiros desiludidos com as experiências collorida e tucana. Quanto a esta última (eu já disse mais de uma vez), não digo o que soube à época porque não tenho provas, os vizinhos se mudam e levam seus sustos consigo. Lula confiou em que não podia confiar, tipo Roberto Jefferson, Severino Cavalcante, Ney Suassuna e outros de mesma estirpe, se já não bastassem os deslumbrados que iriam se valer da possível boa-fé do presidente (lembram-se da carta do Marquês de Pombal a que já me referi outro dia?), e de seu pouco saber e nenhuma experiência, para assumirem as rédeas, por delegação. José Dirceu não cabia em si por ter derrotado Serra, um que sucedera o outro na presidência da UNE, quando os dois alardeavam ter receitas marxistas para salvar o Brasil, no início dos anos 60.
Vivi aquele tempo, de 63 a 67, até me formar engenheiro e “aburguesar-me”, deixando de lado o CPC de Jabor e Vianinha, o Teatro Opinião, as discussões eternas sobre: “yankees, go home”; Lincoln Gordon pra presidente (“chega de intermediários”); o que é bom para os Estados Unidos é bom pro Brasil (do avô de Jutahy Magalhães, líder e prócer do PSDB); e outras pérolas que nos fizeram parar o trânsito no Rio e quase me expulsa da Universidade do Brasil três ou quatro meses após o vestibular, ao barrar o Reitor Pedro Calmon, porque eu fora posto como bucha de canhão na linha de frente (junto com Jaques Purim).
Lembro-me bem de Serra e Dirceu presidindo a UNE. Começavam sua carreira política explorando a massa de manobra em que nos transformavam para atingir seus fins últimos (o Brasil que se danasse, desde que eles se dessem bem).
Não mudaram nada até hoje, juro! Pobre Brasil!
Escrito por J.Celso às 21h28
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