A internet nos aproxima de uma forma surpreendente. Além do e-mail (cada dia mais fácil e usual, coitadinha da Empresa de Correios e Telégrafos), surgem os blogs, como este.
Contudo, a criação do homem inventou ainda os grupos. E, recentemente, entrei em um deles, o dos ex-embratelinos na Yahoo.com.br. Foi muito fácil ser admitido e, quase de imediato, começaram a pipocar mensagens de antigos colegas e de pessoas que não tive a oportunidade de conhecer (talvez elas tivessem ouvido falar de mim). O grupo ainda está em formação, precisa e pode crescer muito, deve ter uns 50 ou 60 membros até agora. Por meio dele, reencontrei um companheiro de andanças holandesas em 1968 e de outros encontros funcionais. Cícero trabalhou na implantação do sistema Philips Belo Horizonte – Recife (Tronco Nordeste) da Embratel, entre 69 e 71. Parou algum tempo em Salvador, depois disso, e nos encontramos algumas vezes lá. É um dos meus personagens do livro “Glosar, glosei”, de 1981.
Como sou dado a bancar o “historiador” espontaneamente, num primeiro momento, falei de minha admissão na Embratel e, depois, de muitas das minhas lembranças ao longo dos 30 anos e 10 meses, quase, na empresa: o que fiz, o que deixei de fazer e o que acho que deixei de legado para a geração que me sucedeu. Várias dessas lembranças já foram postas aqui, nem que fosse como desculpas ou explicações para certas “paranóias”. Porém Maza, de Recife, e Cícero me instaram a relembrar outras, que pus naquele grupo para divulgação coletiva (não sei se houve quem tivesse gostado delas).
Estou dando um tempo, quem sabe ainda volto a pôr mais reminiscências (ou lambanças) para recordar um passado bom, enriquecedor que dá saudades. Foram inúmeros os momentos em que quis parar o tempo, imortalizar aquele instante, posto que haja também os que gostaria de esquecer, ou melhor, não ter vivido. Não trago mágoas eternas, embora não seja cristão a ponto de esquecer o que uns poucos me fizeram (não passam de 4, se muito). Escrevi que a Embratel era uma escola. De fato, aprendi muito nela e por conta dela, amadureci lá, abri meus olhos para o mundo, pude viajar à Europa quatro vezes a serviço (as duas últimas, na verdade, a serviço do Ministério das Comunicações com despesas pagas pela Telebrás). Porém fui, inicialmente, à Holanda (68), depois a Genebra (90), Helsinque (93) e, de novo, Genebra (94). Nessas três últimas viagens, tive o ensejo de representar o Brasil em eventos internacionais do antigo CCITT (na da Finlândia, participei da “morte” do CCITT e de sua substituição pelo TSB/UIT). Foram oportunidades ímpares para confirmar minha tese segundo a qual nós aqui sofríamos de uma espécie de complexo de inferioridade, achando que não sabemos nada e que tudo o que a UIT discute e decide é genial, em que nunca se pensara.
Na I Conferência Mundial de Normalização das Telecomunicações, de 1993, intrometi-me na Comissão de Redação, área que sempre me entusiasmou e me trouxe muita incompreensão de alguns “pares”. Eu, antes, por correspondência, enquanto não me permitiram viajar para estar presente a eventos (em pelo menos três ocasiões, fui “tungado”, proibido de ir, pois poderia mostrar conhecimentos e talentos negados, quem sabe), participara de grupos de trabalho sobre terminologia (aqui, a Telebrás me encarregara de redigir o novo Glossário de Termos Técnicos de Telecomunicações) desde que redigira uma plaquete sobre o tema. Coordenara, também, uma Comissão de Estudos sobre o assunto no Brasil.
A citada Comissão de Redação é algo a que os velhinhos do então CCITT davam uma importância extrema. Há regras rígidas, como prevalecer, em caso de dúvidas, a versão em francês, porque os textos são redigidos (não sei se mudou de 94 pra cá) em três línguas ditas de trabalho (francês, inglês e espanhol), além do russo e do chinês (talvez o árabe já haja galgado o nível de língua oficial além daquelas cinco). Pois bem, o rigor é tamanho que eles não permitem (ou permitiam) que americanos, canadenses, australianos e outros de língua inglesa integrassem a Comissão, porquanto, é evidente, pudessem assistir a suas reuniões, tivessem voz; mas voto, não. Tinha que ser um inglês (nem escocês nem galês ou irlandês). Idem quanto a espanhóis e franceses. E lá me meti eu, com uns dois ou três russos e uns poucos americanos.
Não me contive ao constatar que cada qual analisava o texto para ver se fazia sentido em seu idioma, sem se preocupar se as três versões diziam a mesma coisa. E mais de uma vez eu já observara que, a meu juízo, elas diziam coisas ligeiramente diferentes, mesmo que não conflitassem. Procurei na hora do cafezinho M. Thué, presidente perpétuo da Comissão da UIT CMV (Comissão Mista de Vocabulário, aquela que eu coordenara no Brasil e, por isso, com ele trocara correspondência, tendo recebido um convite para integrar-me à CMV, com o que a Embratel não anuiu), para manifestar minha preocupação. Ao reiniciar-se a sessão de trabalho, M. Thué pediu a palavra (ele não integrava a Comissão, o representante francês era outro e presidia a Comissão de Redação), graças a seu imenso prestígio, e trouxe à discussão meu comentário. Passou-me, de inopino, a palavra. Expliquei e exemplifiquei, com todas a vênias cabíveis. Fui ouvido com atenção e começaram a me perguntar se eu tinha algo a comentar a cada novo texto (e várias vezes tive o que dizer). Os espanhóis me procuravam para trocar idéias, pondo de lado o popalado orgulho. Meu momento máximo, a glória, foi aquele em que pedi licença para sugerir a alteração de uma palavra no texto em inglês. O súdito de Sua Majestade reagiu, como a dizer “quem esse terceiromundista pensa que é?”. Porém o americano da ATT disse que eu estava correto, pois, tecnicamente, a palavra empregada no vocabulário era a que eu sugerira. O inglês era PhD em literatura, letras, gramática, mas não entendia de telecomunicações, não estava 100% a par de nossos jargões. E dei um KO no Mister British (não me lembro mais o nome dele).