Falando o que penso


Seasons´s greetings

 

Todos nós constatamos que, a cada ano, a passagem do tempo fica mais célere. Haja relatividade, einsteiniana ou não. Quando nos damos conta, o ano findou, é tempo de enviar e receber os tradicionais votos de Boas Festas. Aqui em casa, circunstancialmente, sou levado a despertar para o fato porque a mulher as filhas começam a falar em recesso, em férias, em “onde vai ser este ano” o encontro familiar. E sobra pra mim, pois sou o popular “jaque” (já que você não tem expediente a dar...” - como diria FHC, sou vagabundo – veja isso, veja aquilo e mais aquilo outro).

Lembro-me de meu tempo de criança em Natal. Ia à Loja 4.400 (mais tarde, Lobrás) comprar cartões e despachar via postal para meus pais e meus professores. No terceiro ano, perdera a graça, pois já era esperado. Parei de fazer. No Rio de Janeiro, desde os 15 anos, adquirira a prática de comprar a lembrancinha com que presentear de 24 pra 25 de dezembro (creio que a preocupação, na primeira infância, era apenas receber meu “papai-noel”; se davam algo em meu nome, não era eu a adquirir). Amigo Oculto foi descoberta em terras cariocas.

Durante alguns anos, elaborei mensagens para distribuir a colegas, pôr em quadros de aviso ou mandar via malote. Cansei de fazê-lo há bastante tempo e, em 1984, deixei uma glosa no Departamento de Planejamento da Telebrás, de onde sairia em poucos dias (minha cessão encerrou-se em 31/12/84). Era minha última produção ali, a de despedida.

Desde 1985, ao que me recorde, parei de vez de ocupar-me com essas formas de manifestar votos de fim-de-ano. Formulava-os ao vivo a quem encontrasse (por vezes, com atraso).

O Natal, para mim, quantas vezes foi triste, eu cantei esse sentimento em poemetos de 40 anos atrás. Passei sozinho tantos Natais desde que me mudei, em 1960. Antes, Djalma Maranhão (prefeito de Natal) fazia da época um período festivo, com Pastorinhas, Maracatus, Reisados nos palanques armados nas ruas da cidade. Ao chegar ao Rio, ainda dei a sorte de ver a cidade ornamentada por Abrahão Medina, do Rei da Voz, por alguns anos. Seu exemplo não foi seguido, a iniciativa da decoração natalina com recursos privados morreu, e teria acabado inteiramente se o governo não houvesse se encarregado de onerar os cofres públicos, quase sempre combalidos, para alegrar a “galera” (quem não é “povão” não precisa disso, vai festejar em clubes ou restaurantes, quando não em festas familiares regadas a perus, vinhos e champanhe ou uísque).

Por falar nisso, de 1960 a 1981 (meu último Natal carioca antes de me mudar pra Brasília), o réveillon era na praia, ao som dos atabaques e com muita macumba, mães e pais de santo, oferendas e coisas do candomblé. Manifestação espontânea em que o governo entrava apenas com a Polícia, para garantir a ordem e conter os eventuais excessos, e o Pronto Socorro, para acudir os comas alcoólicos inevitáveis  De repente, começaram as queimas de fogos e os shows, afastando a tradição dos terreiros para lugares ou datas distantes. Por que empregar verbas públicas? Por que a iniciativa privada (hotéis e comércio em geral) não arca com as despesas? Por que necessária a atividade oficial, custeada por verbas públicas? Depois lamento ser nostálgico.

Sou de um tempo em que iniciativa privada não dependia de BNDES, privatização era feita sem financiamento com dinheiro do governo, empresário arriscava seu capital (e não o do povo, via bancos oficiais).

Pois é, eu disse que acho o Natal uma época triste. O triste é ver como se administra mal a coisa pública, como se “desgoverna” cada vez pior, como e o quanto se gasta mal. E ainda se reclama de corrupção.

A fonte primeira da corrupção está nesse negócio de o poder público assumir o que a iniciativa privada poderia fazer. Governo é para dar saúde, educação, infra-estrutura e segurança. Nem mesmo emprego, acho, é obrigação primária do governo (a desproporção entre servidores ou empregados públicos e empregados de entidades privadas e congêneres é notória). Assim, se há desemprego, ou se esse demora a cair, a culpa não é necessariamente do governo, mas do empresariado, que pode, querendo, desestruturar qualquer regime, induzindo greves e desabastecimento, além de desemprego.

Chega de jogar a culpa de tudo no governo. Porém chega, também, de o governo ter que legislar (haja abuso de MP) porque os parlamentares não estão preocupados com o interesse social (meu bolso e meu pirão primeiro), legislam cada dia pior (“antigamente o Senado empolgava o cidadão, Ruy Barbosa era aclamado. Que diferença entre o presente e o passado”) priorizando a “compra”, a um preço cada vez mais alto, de um mandato popular para escapar de processos e obter a impunidade parlamentar. Nossos legisladores, ultimamente, são eleitos porque eram bons líderes sindicais, bons professores, bons artistas de rádio ou televisão ou bons costureiros. Para não falar de aculturados exóticos  Onde vamos parar? Voltem o Macaco Tião do Rio, o Bode Cheiroso de Jaboatão e o hipopótamo paulista Cacareco. Pelo menos eles não davam tanta despesa ao Erário, não queriam se equiparar, salarialmente, a um Ministro do STF.

 

 



Escrito por J.Celso às 22h50
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