Crise aérea no Brasil
Desde de criança, a injustiça me incomoda imensamente.
Não me esqueço de um rapaz "de boa família" (como se dizia no Rio Grande do Norte) que cometeu um assassinato e fugiu para não ser preso, evidentemente, beneficiado pelos que lhe deram cobertura e facilitaram sua fuga (a "pista" naquele tempo era uma porta de saída sem maior controle, a uma centena de quilômetros da divisa com a Paraíba, e dali para Recife, Rio, etc.). Provavelmente, só voltou à terrinha depois que seu crime prescreveu.
Também me lembro de um que dera um desfalque na repartição que administrava, soube que seu crime fora detectado e que seria preso no dia seguinte (ah, esse vazar de informações privilegiadas!) e, de madrugada cedo, se mandou pra nunca mais voltar, ficando impune (mesmo que fosse fácil saber de seu paradeiro).
Porém quero me referir a outro tipo de injustiça, o julgamento precipitado e fundado em falsas premissas.
Não se pode negar que a queda do vôo da Gol,a que já me referi antes, disparou a crise que ainda se vive no espaço aéreo brasileiro. No primeiro instante, houve a condenação unânime dos dois pilotos do Legacy como os responsáveis diretos pelo choque, porque teriam desligado o transponder, prosseguido numa altitude diferente daquela indicada em seu plano de vôo (eu imaginara que eles teriam subido para enconomizar combustível voando mais alto, ou ficar fora dos sistemas de controle do espaço aéreo, podendo fazer o que bem entendessem, até para experimentarem seu novo avião) ou coisas do gênero.
O que se ouve diariamente (não agüento mais a imprensa; parece que não tem mais assunto, continua focando sua pauta no tema atrasos, boicotes, falhas no equipamento por erro de projeto ou má conservação - quiçá obsolescência - má administração, falta de verbas, militar x civil, incompetência, despreparo, mais valia, ....) e a afirmativa em expressões como: isso só acontece no Brasil.
Em setembro de 2000, passamos férias na Europa. A coisa mais decantada do mundo é a precisão suiíça, modelo e padrão internacional. Devíamos embarcar em Zurique, pela Swissair, às 22h, para o Brasil (Rio, se não me engano). Mais de uma centena de brasileiros chegaram na hora marcada para fazer o check-in, sem contar a quantidade dos que estavam ali em trânsito (nós, inclusive, que procedíamos, via Swissair, de Hannover). Às 23h00, nada de nos chamarem para embarcar. O aeroporto começou a literalmente "fechar", apagar luzes, empregados e atendentes indo embora. Nenhuma mísera informação (os em trânsito estavam segregados, já na área de embarque). Passava de meia-noite quando fomos chamados a embarcar ... de ônibus ... easy rider. Perto da uma, chegamos a um hotel em Lucerna (o ônibus estava superlotado, eu não consegui lugar pra sentar nem nos degrauzinhos, viajei em companhia de mais de uma dezena em pé; a duras penas, conseguimos dois lugares que minha esposa e minha filha ocuparam). Foram gentis o suficiente para nos pagar um jantar, dar direito a uma ligação internacional, e reservaram um apartamento. Tivemos que tomar banho e voltar a vestir a mesma roupa suada, e dormir nus (pois a bagagem não pudera ser entregue, estava em algum container inalcansável). Resumindo, fomos para cama às 2 e acordados às 4h30 (a viagem de volta até Zurique tinha que começar às 6, todos com breakfast tomado); o avião sairia às 10 (saiu às 10h30). É que muitos passageiros haviam sido deslocados para dormir, tal como nós, em Genebra, Berna ou Basiléia porque não havia mais vagas em hotel na cidade.
Nenhuma explicação foi dada para o não-embarque na véspera. Teria havido uma greve de pilotos ou do pessoal de terra? dos controladores de vôo? A aterrissagem sem qualquer problema, apesar de muitos atrasos, de dezenas de vôos - inclusive do que nos trouxera em céu de brigadeiro da Alemanha - afastava a hipótese de razões climáticas que impedissem pousos e, principalmente, decolagens.
Chegamos ao Rio de Janeiro às 15h00, mais ou menos, e só conseguimos chegar a Brasília depois das 19h00. Naquele dia, vencia a fatura de meu cartão de crédito (05/9) que eu deixara para pagar quando chegasse, pois o horário previsto, desde julho, era estar em casa às 10h30 da manhã dquele dia.
Pois é, gente que talvez nunca haja saído do Brasil e que, aparentemente, não vai ao cinema nem vê TV, enche os peitos e abre a boca para dizer que isso só acontece no Brasil, que a culpa é do Brigadeiro, do Ministro ou do Presidente. Ou da Gol, TAM, Varig, Oceanair, BRA, etc. Que boa oportunidade de manter a boca fechada sem dizer bobagem. Atrasos são coisas rotineiras. Quem se der ao trabalho de acompanhar o noticiário vai saber que HOJE há aeroportos fechados, vôos cancelados e atrasados, passageiros ensandecidos ou prejudicados, perdendo compromissos ou conexões, em várias partes do mundo, principalmente na Europa, Canadá e Estados Unidos. Quem não sabe do filme "VIP", e de outros tantos mais, com "tragédias" de famílias que não conseguem se reunir para o Natal (a maior parte deles em tom de comédia pastelão) devido a questões como essa crise que agora atacou nosso país?
Igualamo-nos ao primeiro mundo, também (ou somente), em matéria de tráfego aéreo!
Escrito por J.Celso às 16h11
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