Falando o que penso


Lembranças 3

Das lembranças que vão surgindo aos borbotões, a figura importantíssima do Ataliba, pois ali, em sua mesa ao lado do elevador, assinávamos a presença em aulas que nem sempre tinham havido ou a ela não havíamos comparecido.

 

Também me vem à memória as atividades na Atlética, principalmente no futebol, com o inesquecível clássico no Maracanã, contra a Medicina, na preliminar de um Brasil e União Soviética, em novembro de 65, em que o time era, em sua maioria, da nossa turma, a começar dos dois goleiros (Karlheinz e Pedro Cataldo) e mais os titulares Almir Bonilha, Balinha e Roberto Rocha, comigo no banco, como cartola.

 

A vida profissional nos reuniu a muitos, depois.

 

Eu, por exemplo, tive dois ex-colegas por chefe imediato, Izaquiel e Décio, e, entre eles, um terceiro (Mário Marsiaj) foi chefe do meu chefe. Mais de 20 de nós trabalhamos na mesma empresa, a Embratel, nem todos ao mesmo tempo, dos quais uns 15 eram Eletrônicos e uns 7 Eletricistas.

 

E, com o tempo, fomos vendo ou sabendo que nem todos se dedicaram à Engenharia:.houve um que virou piloto de Boeing e presidente de companhia aérea; pelo menos dois continuaram Fiscais de Rendas do Estado; alguns abraçaram a política e chegaram à Câmara Federal ou a Governador de Estado (além daqueles que tentaram chegar ao Congresso sem êxito); os que se tornaram professores universitários e até foram Reitores da UFRJ, aqueles que migraram para a Informática, graças à evolução da eletrônica digital que apenas engatinhava quando nos formamos, como disse o poeta Augusto dos Anjos, em outras eras, no cosmopolitismo das moneras. E, não constitua surpresa se engenheiros se transformaram em juristas ou em Mestre de Artes Marciais.

 

Ao nos formarmos, não tivemos Baile de Formatura, limitando-se o programa a dois cultos religiosos e à cerimônia de colação de grau. Nos 40 anos, vamos ter um jantar dançante, a segunda vez em que nós nos encontramos em um tal ambiente, pois, em maio de 1963, estivemos no Hotel Glória, com uns chapeuzinhos um tanto ridículos, no Baile dos Calouros. Ao que eu saiba, todas as comemorações até agora foram em jantares ou almoços, e lamento não ter podido estar presente a todos, principalmente depois que me mudei do Rio, para Recife (entre 69 e 71) e para Brasília, desde 82.  Numa desses encontros, se não estou enganado o dos 20 anos (87), fiquei retido por falta de teto em Campo Grande – MS, o que comprova (como sabe o Engenheiro Mecânico com aperfeiçoamento em Máquinas Térmicas Alberto Fajerman) que a crise aérea é antiga.



Escrito por J.Celso às 18h36
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Mais lembranças noturnas

Naquele longínquo 1963, um segundo-anista, coisa que nunca acontecera, foi o candidato da CI eleito presidente do DA, que as contingências fizeram com que se formasse conosco em 1967 em Engenharia Mecânica, aperfeiçoamento em Equipamentos e Sistemas Industriais, Joaquim José de Mello Bastos, um paraense cuja inteligência e carisma quase todos admiravam e com certeza muitos invejavam.

 

Mas recordo um pouco antes, os primeiros dias de aula, quando não havia refeitório para nós e, se quiséssemos ou precisássemos, o jeito era ir almoçar na Arquitetura ou na Puericultura, onde funcionavam bandejões. Não sei se já no segundo semestre de nosso primeiro ano ou ao iniciar 1964, ali onde hoje é um centro de pesquisas da Petrobrás, foi construído o nosso refeitório.

 

Nossa odisséia, na verdade, começava para chegar à Ilha do Fundão, de ônibus até Bonsucesso ou até a entrada da Cidade Universitária, onde disputávamos eventuais caronas com os poucos que já tinham carteira de motorista e carro (nem que fosse o do pai). Ou nos espremíamos naquele ônibus que saíra meio lotado de Bonsucesso.

 

No começo de 1964, praticamos outro ato ousado, obrigando o Presidente da República  a parar e ir ao palanque armado para uma gravação de Noite de Gala, com o próprio Flávio Cavalcante a conduzir o agito, alguém que, como Chacrinha, estava na televisão (TV Rio) mais para confundir que para explicar.

 

Deve ter sido na semana do comício ou da assembléia que derrubou Jango, não sei se a do Sindicato dos Marinheiros ou o da Central do Brasil.  Contudo, lembro-me que havia um número musical organizado por Flávio Cavalcante (ainda não cognominado Rei da Televisão) que dizia:

 

Seu João Goulart, seu João Goulart

O senhor tem que nos ajudar

Na Cidade Universitária

As obras não podem parar

 

Com tanta demagogia

Nem se pode estudar

 

Isso aqui até parece

Um Primeiro de Abril

No entanto, ela será

A grande obra do Brasil.

 



Escrito por J.Celso às 18h34
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Data comemorativa

 

Está fazendo 40 anos que me formei Engenheiro Eletrônico pela Escola Nacional de Engenharia da antiga Universidade do Brasil (ENE-67).

 

Em 1963, éramos quase todos jovens mal chegados à capacidade relativa dos 18 anos e, se não me engano, alguns não haviam completado sequer 17, quando transpusemos o portal de um dos vários vestibulares de Engenharia então existentes no Rio de Janeiro-"GB" (UB, EPUC, UEG, UFF, não tenho certeza se também Gama Filho), todos com provas discursivas, ou seja, tendo que provar conhecimentos, sem essa de dar sorte e passar ao acertar as cruzinhas nos lugares certos.

 

Creio que o primeiro dia de aulas foi em março de 1963, e no primeiro instante constituíamos grupinhos conforme a origem, fosse o Colégio Militar, o Pedro II, o cursinho pré-vestibular, a igreja, clube,  o estado ou o país de onde viéramos. Havia os paraguaios, os bolivianos, os chilenos ou os peruanos; os goianos, os mineiros, os capixabas, nordestinos, nortistas, matogrossenses, .... E os que não se enquadravam em nada disso.

 

No início, éramos as Turmas A e B, separados pela inicial: de A a parte dos nomes começados por J e do  J seguinte até  Z, se Zamir tivesse entrado conosco, embora ninguém fosse além de Winston Félix.

 

Cerca de um mês depois, foi criada a Turma C, que tinha aulas à tarde e os novos colegas eram conhecidos por “excedentes”.  Já no segundo ano (ou, quem sabe, no segundo semestre de 63) fomos nos confundindo, pois as aulas práticas de Física I já nos haviam misturado.

 

Vivíamos o tempo agitado que antecedeu o movimento militar de 64. Por jovens, creio que somente uma minoria era politizada, enquanto a maioria (na qual eu reconheço me encontrava) era, como se dizia, alienada, massa potencial de manobra à disposição dos dotados de melhor dialética.

 

Não posso esquecer que a minha primeira aula na ENE foi de Física, com Madruga. Mal começara a aula quando alguém entrou no Anfiteatro, pediu licença ao professor e se dirigiu à Turma B apresentando-se como Presidente do Diretório Acadêmico, cumprimentando-nos e nos parabenizando por sermos universitários “da mesma forma e com o mesmo direito a voto que os veteranos”. E convocando-nos para uma assembléia que se realizaria naquela tarde no Largo de São Francisco, não me lembro por qual o motivo ou pra discutir o quê (a do ingresso na UNE foi meses mais tarde, e ficou decidido por estreita margem que não entraríamos).

 

Quando Paulo César Guimarães Brandão saiu da sala, provavelmente para ir à Turma A ou a uma das Turmas do segundo ano, fui sacudido com essa lição fora do script ou do currículo, saída da boca do Major Madruga: “Não vão na onda desse cara não, que ele é comunista!”.Talvez estivesse se dirigindo a seus ex-alunos do Colégio Militar do Rio de Janeiro.

 

Foi meu (ou nosso) batismo de fogo. Eu que conhecera comunistas no meu Rio Grande do Norte, e quase todos admirados e respeitados pela inteligência, sem proselitismo explícito (pelo menos para crianças e adolescentes – eu saí de lá antes de completar 15 anos), finalmente, ia ver se os do Sul Maravilha comiam criancinhas.

 

Fui à assembléia, vi o CPC da UNE e nele estavam Vianinha e, pasmem, Arnaldo Jabor, apresentando, se não me falha a memória, Um dia na vida do Brasilino.

 

O primeiro ano foi agitado, fizemos muitas passeatas, interrompemos o trânsito carioca algumas vezes: em frente à Reitoria; na Praia do Flamengo; e na Avenida Rio Branco. E fizemos um piquete para que o Reitor Pedro Calmon parasse no Bloco A, em uma visita que ele ia fazer à Faculdade de Arquitetura. Naquela tarde, sentado no capô do carro do Jaques Purim, vi o dedo daquela magnificência imortal e quase perpétua se aproximar de meu rosto ameaçando: “Eu o expulso da Universidade!” (segundo batismo de fogo).

 

 



Escrito por J.Celso às 18h32
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