Falando o que penso


Minha segunda Bodas de Prata

 

Num dia 23 de fevereiro, há 25 anos, voltava eu pra casa, na hora do almoço quando resolvi passar em um supermercado e fazer algumas compras (quem me conhece de perto sabe que adoro um supermercado, o que já foi até motivo de gozação em um bolo de aniversário).

 

Ao entrar na fila do caixa, senti o que papai descrevia como gosto de cabo de guarda-chuva na boca   Comecei a suar frio, imaginei que fosse desmaiar, sentei-me na cadeira do caixa ao lado (estava fechado) e nem me lembro o que comprei nem quanto paguei. Meu fusquinha estava bem em frente, pedi ao empacotador que me ajudasse levando minhas compras até lá, fui pra casa. Surgiu um chatérrimo comichão no braço esquerdo, e a vontade que dava era pegar uma foice, cortá-lo e jogar todo o braço fora. Fui dirigindo devagar pensando comigo: se piorar, paro e peço pra ligarem lá pra casa (havia um Fiat 147 na garagem).

 

Deu pra chegar, embora a coisa estivesse cada vez pior, suando tanto que minha camisa pólo já grudara no corpo, e minha primeira ação, em casa, foi tirá-la, o que não era nem é hábito meu. Évelin, Rebecca e Dhenise estava ainda de maiô, saindo da piscininha de plástico que puséramos no quintal e vieram a meu encontro. Larguei o carro e as compras ali mesmo e comentei que estava passando mal.

 

Mais uma vez, Papai do Céu estava a me amparar. Todas em casa haviam passado a manhã vendo TV Mulher, e naquele dia Marília Gabriela entrevistara Dr. Adib Jatene, que comentara sobre os sintomas esquisitos ou estranhos, posto que usuais, de um infarto. E a empregada chamara a atenção de Évelin, em particular, se não era aquilo que eu vinha sentindo nos últimos 15 dias.

 

Já comentei aqui sobre os erros médicos que resultaram em diagnósticos equivocados e tratamentos incorretos ou desnecessários (gota, quando era artrose mais recentemente); aquele foi o primeiro de grandes conseqüências: um ortopedista apontara um bico-de-papagaio, ou algo no sentido, e me prescrevera (e fiz) fisioterapia intensiva (ondas curtas, tração cervical, massagens, infravermelho, .....). Ao fim da última das 15 sessões, era uma segunda-feira de carnaval, encontrei-o e comentei que melhorara, mas estava longe de ficar bom. E ele pontificou: volte aqui na próxima semana que eu passo um colete ortopédico. Não cheguei a usar.

 

Dois dias depois daquele encontro, foi aquele 23/2. Fui parar no SOS sob os cuidados de um peruano sensacional que me assiste até hoje, Dr. Juan Flavio Bresani, com um infarto agudo do miocárdio, que hoje completa Bodas de Prata.

 

Viva!



Escrito por J.Celso às 08h53
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De um velho e esquecido caderno

 

Abri um velho caderno em que fui, há muitos anos, transcrevendo os versos que ia “cometendo”. Surpreendo-me com a quantidade dos que permanecem inéditos. De fato, além dos 3 livros de glosas, somente imprimi um, o de estréia (Versos Íntimos, 1966), magérrimo opúsculo de 50 páginas contendo 55 poemas ou poemetos. As incultas produções da “adolescência” ou da puberdade, escritos entre os 17 e os 19 anos. Nesse caderno, existem mais de 230, contando os 55 do livro cuja boneca também está nele, nos mínimos detalhes.

 

Aos 18  anos e meio (setembro de 64), um que não está no livro, diz:

 

Nasci para da vida provar os sofrimentos,

e na vida me privei de tudo

para gáudio dos outros.

 

Mais tarde, ainda jovem, já atingida a maioridade civil, escrevi:

 

Quando eu morrer,

vão me levar para o cemitério.

Não sei se irei sério,

mas irei tranqüilo

por ter feito tudo aquilo que devia

 

  e vaticinava:

 

Espalhei bondade por onde andei

a bondade dos gordos (e eu sou gordo),

tracei rotas de luz nos caminhos diversos.

 

E, nos meus versos,

deixei lições de humanismo.

 

Fui otimista e, na humana lida,

fiz dos meus sonhos minha própria vida.

E minha vida foi de sonhos....

Fiz amizades e delas fui amigo.

Partirei de um mundo sem inimigos,

pois só com amizades me preocupei.

 

para continuar prevendo:

 

Não tive glórias, tive muita sorte

por ter podido ser o quanto fui

 

e

 

No momento sublime de morrer,

aqui deixarei como legado

um mundo imenso todo preparado

pra receber as gerações futuras.

 

Quarenta anos depois, com certeza, não escreveria mais isso, se ainda escrevesse poesia.

  

 

 

 



Escrito por J.Celso às 23h26
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Noutros tempos, como se utilizava cartão corporativo

 

Na minha longa, longuíssima, permanência na Embratel, enquanto trabalhei na Sede, recebi a confiança da empresa ou de chefias para efetuar despesas ou assumir compromissos em seu nome.

 

Fui incumbido, cerca de uma dezena de vezes, de levar pessoas a eventos, jantares, shows, passeios, etc. notadamente em Missões do CNET que vinham ao Brasil, visita de expertos da UIT/”CCITT” ou encontros de técnicos que ocorriam na Embratel.

 

Uma delas foi bem curiosa e beirou o tragicômico. Um engenheiro do CNET veio ministrar um curso de uma semana no Rio para engenheiros do Sistema Telebrás (não me lembro agora do nome dele). Sua esposa o acompanhara na viagem (a passagem dele estava paga e havia diárias que ajudaram na passagem dela e na hospedagem).

 

Era usual reservar hotel na Av. Atlântica ou em Copacabana ou Ipanema (normalmente um 5 estrelas, tipo Rio Othon) e pôr um carro à disposição do convidado ilustre para o trajeto hotel-Embratel-hotel, com motorista bilíngüe e podendo estender a utilização no fim de semana para o turismo inevitável aos pontos principais: Pão de Açúcar, Corcovado e coisas assim.

 

Eu, de moto próprio e por minha conta, costumava ir recebê-los no aeroporto, dar uma prova das boas-vindas. Com eles dois não foi diferente. Ao cumprimentá-los e perguntar se a viagem fora agradável, vôo Varig, informando que estava à disposição de levá-los ao hotel que reserváramos (a Embratel), fui inicialmente surpreendido ao saber que ele já providenciara, desde a França (Lannion), o hotel, e que esse era o Flórida, na Praia do Flamengo.

 

Antes de me preocupar em alterar o esquema montado (cancelar a reserva), lembrei-me que teria de ter tempo para avisar ao motorista/locadora, que não seria em Copacabana que deveria apanhar o francês às 9h00 daquela manhã (eram mais ou menos 7h30).

 

Segunda surpresa: ele iria de ônibus do hotel pra Embratel, e no percurso de volta, pois a escolha do hotel também fora influenciada pela localização e facilidade de transporte coletivo (não havia metrô ainda, isso deve ter sido em 75 ou 76). Apenas queria que eu informasse qual a linha mais recomendada, uma que parasse na frente da Embratel, quanto tempo demorava, onde era o ponto, se o mesmo ônibus servia para o regresso no final do dia, ...

 

Pontualmente às 09h00, ele estava na Embratel, depois de deixar a mala e a esposa no Flórida e trocar de roupa (deve ter tomado um banho, apesar de francês). Era uma segunda-feira, e a missão duraria até a sexta. No primeiro dia, muitos de nós saímos juntos na hora do almoço, e ele foi conosco. Cada qual pagou sua refeição, inclusive ele (a “mordomia” seria apenas na saída noturna, uma vez, próxima a se encerrar sua estada). Deixei para convidar na terça ou quarta.

 

Uma vez aceito o convite, eu precisava de alguma antecedência para a ARP (Geraldo) fazer a reserva de uma mesa (no máximo para umas seis pessoas, se houvesse “alunos” na missão mais grados – às vezes, vinha um chefe de Departamento de empresa-pólo; caso contrário, seríamos mesmo no mínimo quatro, se o convidado estava acompanhado, ou dois, se viera sozinho, ele e eu – para pagar a dolorosa e conduzi-lo).

 

Terceiro imprevisto: ele não podia sair conosco porque já agendara compromissos até a quinta-feira à noite e programara uma viagem às cidades históricas de Minas com partida às 18h00 da sexta.

 

Bom, com isso, desliguei-me do francês e quase o esquecera, quando, na quarta-feira da semana seguinte, recebi um telefonema dele. Disse-me que estava de volta ao Rio, ia voltar pra Paris na sexta à noite e que estava com a quinta-feira livre. E perguntou se meu convite de uma saída à noite ainda estava de pé. Claro que o confirmei no ato. E fui correndo procurar Geraldo para as providências cabíveis.

 

Deu chabu, naqueles dias não havia em cartaz nenhuma das  atrações que eram as preferenciais (Plataforma, Hotel Nacional, Sargenteli e outras desse nível). Terminamos indo a uma churrascaria na Tijuca, para um show do Gasolina.. Laércio foi conosco, pois iria em seguida a Lannion, com Aduan, para uma segunda etapa da Missão CNET, e convinha preservar o contato (ele participara como treinando da missão no Rio, tal como eu).  Pois bem, Laércio e a esposa acharam pobre o espetáculo, mas era o que dera pra se arranjar em cima da hora, paciência.

 

Os franceses ADORARAM, exultaram, salientaram o fato de terem travado contato com a arte popular mais legítima, ouvindo um sambista autêntico, embora nem tão famoso. Ao retornar ao hotel, achei cabível me oferecer para uma ronda, imaginando mostrar (eram umas 23h00) as praias, talvez a Barra da Tijuca que começava a ser um point e temi que eles quisessem ir ao Corcovado (ela já fora durante a semana anterior). Quarta e última (ou maior) surpresa: ela queria ir conhecer a Rocinha.

 

Pudera, descobri naquele momento que ela era fanática eleitora de Georges Marchais, o líder comunista francês que aspirou a presidência do país até morrer. Era comunista de carteirinha, militante, e eram essas coisas que a atraíam.  O marido não dava palpite em contrário, era bem-casado.

 

(Fomos a São Conrado, mostrei a favela vista lá de baixo, apontando onde ficava e falando do perigo de entrar lá àquela hora. Talvez ela ou os dois hajam me tachado de burguês).

 

 



Escrito por J.Celso às 12h46
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