Falando o que penso


Visitei um paraíso!

 

Realizei há dias mais um sonho de vida: fui conhecer Fernando de Noronha, ah Noronha!

 

Passamos lá 4 dias, e não sei se precisaria mais tempo. A BR 363 (asfaltada), que corta a ilha principal de Sueste a Norte, mede “extensos” 7 quilômetros e meio. Sem contar essa via, todas as demais são em pedra  (nem mesmo paralelepípedos) e são íngremes. Praticamente impossível andar, 50 metros que seja, sem subir ou descer uma pirambeirazinha.

 

Porém a paisagem é linda, a flora verdejante e encantadora, abundante, numa orografia, para mim, inesperada. Há variações súbitas de 40, 50, ... 70 metros (que é o quanto se desce, por exemplo, para ir à praia da Baía do Sancho, por escadas metálicas encravadas na rocha e degraus de pedra, segundo me disseram – por razões óbvias, não nos arriscamos; fotografamos do alto).

 

Percorremos por completo a ilha em um bugue que nos conduziu das 08h às 18h30. Aliás, fomos e voltamos mais de uma vez, pois começamos o passeio pela parte sul (praias do Sueste, da Atalaia e do Leão), vimos as baías do Sancho e dos Porcos (por trilhas) no lado do Mar de Dentro (oeste), almoçamos mais ou menos no centro – perto do Bosque Flamboyant -, depois fomos ao extremo Norte para ver as atrações que ficam no Mar de Fora (Buraco da Raquel, praia da Caeira, Morro do Francês, Museu do Tubarão, encontro das águas dos mares de Dentro e de Fora) e voltamos à tarde na direção sul , para ir às praias do Boldró e da Cacimba do Padre e (re)ver o pôr-do-sol de um mirante que nos permite ver, também do alto, as praias do Americano e do Bode.

 

Em uma das noites, fomos ao Projeto Tamar / Ibama para uma palestra sobre tubarões. Cada noite é um tema diferente, e eles programam idas para ver a desova das tartarugas marinhas e as tartaruguinhas que saem dos ovos e se dirigem, por instinto de preservação, ao mar. São dois instantes separados por uma noite, que começa às 20h com a desova e termina às 06h com o “nascimento” dos filhotinhos ali deixados cerca de 50 dias antes, enterrados a 70 cm, aproximadamente. Na Cacimba do Padre, vimos três “ninhos” devidamente marcados, de onde, em breve, sairão novas tartaruguinhas marinhas (20g e 5 cm, em média). As fêmeas voltarão 20 anos depois para ali também enterrar seus ovos (algo como 120).

 

Causa surpresa e admiração a consciência ecológica do turista. Não se encontra uma ponta de cigarro na rua. Há latas de lixo seletivo espalhadas nos lugares mais inesperados, praias afastadas e trilhas. Também o cuidado e a presença marcante dos fiscais do Ibama inibem gestos que atentem contra a preservação da flora, do ambiente como um todo e das espécies que constituem a fauna (pássaros e peixes, principalmente). Em certas praias não se pode sequer pisar no chão, para não afetar os plânctons ou algum peixinho, e há que se respeitar as áreas de alimentação e reprodução das espécies aquáticas, inclusive tubarões – cuja pesca está proibida (não está dando para comer tubalhau, a especialidade gastronômica do arquipélago).

 

Espalham-se pela ilha ruínas de antigos fortes, alguns de mais de 300 anos (ocupações holandesa e francesa, e as retomadas pelos portugueses).

 

Outra coisa que me surpreendeu muito, também, foi a infra-estrutura turística, com placas indicativas de cada ruína ou atração, a razão e a origem dos nomes de cada qual, sinalizando como chegar a cada lugar e tudo que uma cidade grande deve ter. O turismo ecológico é a base da visitação à ilha, extremamente bem controlada, com cobrança prévia de taxa de preservação correspondente aos dias de permanência (em média, R$ 34,00 por dia). Muitos vão lá para mergulhar ou surfar. Ou fazer as trilhas, algumas enlameadas e de até 1 km.

 

Ao chegar, cada visitante recebe uma página com quatro partes numeradas por código de barra (individualizada via computador a cada turista ou “imigrante” – os residentes devem ter outro tipo de controle), ficando uma  na catraca de acesso à sala de retirada da bagagem, a segunda entregue na pousada (são mais de 150, de qualidade e conforto variados, de 30 a quase 2.000,00 reais de diária) e as duas restantes, uma no check-out (para conferir que a permanência durara mesmo apenas o número de dias previsto, e pelos quais se pagara a taxa de preservação, podendo pagar o adicional – não sei se com alguma multa) e a outra na catraca de acesso à sala de embarque.

 

É um turismo relativamente caro, pois tudo ali pagara frete para estar disponível – não há indústria alguma lá – e a alimentação, igualmente, depende do continente. Mas não é proibitivo, com preços bem razoáveis (cerveja por 3,00 reais a latinha ou 5,00 reais uma long neck). Também há bastante self-service e comida no quilo para quem não queira ir a restaurante à la carte (um destes, Ecologiku´s, é de primeiríssima qualidade e tem preço relativamente salgado – o prato para duas pessoas pode sair por mais de R$ 100,00).

 

Ouvi de uma senhora que estava hospedada na mesma pousada que pagara 30 reais por um remédio que costuma comprar por menos de 15 em São Paulo. E os viciados sofrem no bolso, pois um maço de cigarros custa 6 reais.

 

A beleza da Ilha de Fernando de Noronha (Vila dos Remédios e outras vilas mais, meros bairros: dos Três Paus, da Coréia, da Quixaba, da Vacaria, Floresta Velha e Floresta Nova, da Conceição) e algo indescritível. Passeio que não se deve deixar para a “melhor idade”, pois as pernas vão reclamar ou atrapalhar sua viagem. É programa para jovem, com ânimo e fôlego.

 

Existem microônibus como transporte público, muitas vans de agência de turismo e bugues, muitos bugues. Ah, ia esquecendo: e UM posto de abastecimento de combustível, UM banco (Real) e UM hospital.

 

Seus 3 ou 4 mil habitantes fixos vivem na mais completa paz, constando como o último crime ocorrido um passional há mais de meio século. Imagino que os presos políticos que foram mandados pra lá (em 30 e em 64, por último, mas já no tempo do Império e do Brasil Colônia para lá eram mandados os “correcionais”) deviam viver “em liberdade”. Não há cadeia. Só as ruínas das antigas casas-presídio de 200 ou 300 anos atrás, algo como do final do século XVIII (1780).

 

Não se temem roubos ou furtos, a porta da minha pousada ficava aberta a noite toda e não fica ninguém na portaria (quem tinha de chegar à ilha e se hospedar, já o fizera, no máximo, às 17h). Tem um vôo diário da Varig, ligando ao Recife, e dois ligando a Natal, pela Trip. Ao porto, chega um ou outro barco por semana.

 

 

 

 

 



Escrito por J.Celso às 16h29
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