Emílio, ano 80
Não quero deixar passar em branco que 4 de junho é uma data muito querida, o aniversário de meu tio Emílio, que, se vivo fosse, hoje completaria 80 anos.
Já me referi a ele aqui, mais de uma vez. Era um atleta campeão em qualquer esporte em que se aventurasse. Excelente jogador de futebol (até de basquete, apesar de não ser alto), teve problemas de menisco a “interromper” sua carreira de futebolista amador. Submetido a uma artroscopia ou procedimento semelhante (vivíamos os anos 60), passou a jogar sinuca. E também aí ganhou prêmios em todos os torneios que disputou.
Porém seu traço mais marcante era a doçura, imprevista ou não previsível em um militar tido por “caxias” ao extremo, não se afastando do RDE e nem vacilando em denunciar ou representar quanto à mínima infração que lhe chegasse ao conhecimento ou injustiça que entendesse haver sofrido.
Ao que eu saiba, jamais filiou-se a partido político ou foi ardoroso defensor de qualquer ideologia ou líder. Se por acaso o comunismo houvesse sido implantado no Brasil e virado a nova lei, ele teria se enquadrado, como os militares da União Soviética faziam, é o que imagino. Porém, até então, o regime era o democrático, o comunismo se encontrava banido e proibido no país. Nem por isso foi um caçador de comunistas.
Durante meu tempo de estudante universitário, entre 1963 e 1967, que não foram verdadeiramente os chamados anos de chumbo, troquei muitas idéias com ele sobre o governo Jango e os primeiros governos pós-64. Discordávamos em vários aspectos ou “soluções”, mas concordávamos em muitos outros.
Em 31 de março de 1964, ele se frustrou porque não lhe avisaram que ia haver um golpe, e ele dormiu tranqüilamente, acordando no dia seguinte para ir pro quartel em que servia. Foi vítima de uma prisão no quartel, o que o retirava da lista de promovíveis por merecimento (de Capitão pra Major) e o relegava a posição bem pouco lisonjeira nos promovíveis por antiguidade. Ia levar carona de qualquer jeito. Insurgiu-se, alegando que estava sendo prejudicado porque fora punido por um comandante de quem discordara em questão a seu ver relevante (o comandante era da turma do Jair Dantas Ribeiro, e dera “ganho de causa” a alguns sargentos em desfavor de oficiais, quebrando a hierarquia, com o que meu tio não se conformara).
Discutimos o teor dos requerimentos e acompanhei suas andanças, indo a audiências com as autoridades militares que julgariam seu recurso, até falar com o próprio Ministro da Guerra (ainda se chamava assim). Terminou por ser promovido por merecimento, num reconhecimento de que a punição deveria ser apagada de seus assentamentos, porque ele teria sido punido “por se opor a um movimento que resultara derrotado” ou algo no sentido.
Estava ele com a morte anunciada, por leucemia, após algumas internações demoradas e sofridas. Foi para casa, esperar sua hora. Curtiu os últimos dez ou doze meses de vida Teve o carro 0 km que tanto sonhara e nunca pudera ter. Em maio de 1976, meu pai morreu de infarto saindo de sua casa, e ele foi ao velório. Ali estando, chegou o padre para rezar a missa de corpo presente (o padre era muito amigo de meu pai) e, ao deparar-se com o morto (que não sabia ser meu pai), disparou em alto e bom som: puxa, eu pensei que tinha vindo rezar pelo cunhado de Hélio! Morreu daí a menos de 5 meses (outubro).
Fez a ainda faz muita falta!
Escrito por J.Celso às 17h32
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