Para quem reclama da inflação brasileira
Um dos meus costumes, muitas vezes condenável, é guardar papel velho. Tenho, por exemplo, todos os meus demonstrativos de pagamento desde janeiro de 1968, mesmo quase dez anos depois de sair da Embratel. São três pastas velhas (A-Z) em que fui juntando tudo o que me dissesse respeito no que toca ao emprego. O mais antigo é uma carta assinada pelo Gen. Galvão dando a notícia de que eu fora selecionado para trabalhar na empresa.
Em outras pastas ou caixas estão outros papéis, anotações, memórias e lembretes. Ou, quão inútil, as cobranças (seriam faturas?) semanais do De Witte Bergen em que era também dado o recibo. Datam de março a junho de 1968 e cada qual se refere a uma semana de hospedagem. Que bons tempos! A diária pelo apartamento single era 15,00 e isso dava menos de US$ 5.00 (a taxa de conversão era algo como US$1.00 = 3,60). Que beleza a diária recebida de US$ 20,00!). O apartamento double saía por 25,00, se não me engano (como roncasse muito, a apnéia ou a SAOS, eu fiquei sozinho, enquanto todos os demais dividiam apartamento: Broad com Canarim, Arakawa com Perrone, Fausto com Pizzi, e não me lembro com quem ficavam Dias (com Penna?), Rafael e Pines (seriam eles colegas de quarto?) Ou Avellar também dividia seu apartamento com alguém? Os outros dois dividiam com suas esposas, Alpha e Nicácio.
Vinte e dois anos depois, em outubro de 1990, passei um fim de semana no mesmo hotel (na verdade, uma noite, de sábado para domingo) e não vi grandes diferenças – até uma antiga garçonete ainda estava lá, embora já fosse a gerente do restaurante, a Vera. Exceto na tarifa do hotel e na conversão da moeda. Um dólar comprava apenas 1,60. E a diária subira para 80,00 (o que significavam US$ 50.00, aproximadamente). Voltei, mais uma vez, em julho de 1992, e não houvera tamanha diferença desde 1990, acho que paguei os mesmos 80 florins.
Em Genebra, a que me referi recentemente em outra rememoração, todas as quatro vezes em fui lá, me hospedei no “hotel da Madame”, onde ronronava o gordo chat da Famille Goulay, o Les Arcardes, na Place de Cornavin, em frente à estação de trem. Na primeira viagem, em outubro de 1990 – aquela mesmo que me propiciou o primeiro retorno à Holanda – paguei CHf 80,00 por dia (acho que era isso sim). Em 1992, 1994 e 1999, também (houve uma viagem em que paguei menos, apenas 70 francos suíços, porque o hotel estava lotado e eu fiquei em um “quarto” – sem banheiro privativo – que era do outro lado do corredor, bem em frente à porta de meu quarto; saí ganhando duplamente, pois o quarto era muito maior, mais silencioso e reservado (não ficava junto à sala onde o déjeuner de matin era servido desde as 06h00 ou 06h30, talvez 07h00).
Nessas quatro oportunidades, a cotação do franco suíço variava (um humming, uma fibrilação) entre 1,2 e 1,25 para adquirir um dólar americano. Ou seja, a diária do hotel era uns 65 ou 70 dólares.
Ontem, me deu saudade e entrei no portal do hotel. Quanta surpresa! A menor diária está em CHf 225,00, subiu para cerca de três vezes mais, em menos de 9 anos.
Na mesma faixa estão os demais onde ficávamos os que recebiam a chamada “diária Embratel” ou “diária Telebrás”, como o Montana (285), o de Genève (253), o Montbrillant (282), o Savoy (261) e, um pouco mais barato, o Bernina (166). Pela cotação de ontem, o franco suíço está taco a taco com o dólar, pois vale R$ 1,55.
Isso quer dizer que a diária naqueles hotéis está por uns R$ 350,00, cerca de US$ 200.00!
E ainda se reclama da inflação e do custo de vida no Brasil. Em novembro passado, paguei R$ 170,00 em um hotel na Av. Atlântica, com vista para o mar..... (aliás, paguei em reais por uma cotação em dólar, porque fiz a reserva via um portal desses americanos).
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Escrito por J.Celso às 16h26
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