Falando o que penso


Santo de casa

 

Aqueles que me conhecem há mais tempo ou sabem de minha trajetória profissional (um único empregador por mais de 30 anos) podem até discordar, mas vão entender.

 

Vivenciei, mais de uma vez, a famosa história do “santo de casa não faz milagre”.

 

A empresa para a qual trabalhei toda uma vida, de início, contratou assessoria especializada internacional para fazer seus projetos e gerenciar as implantações de seus sistemas. Nenhuma dúvida quanto à competência das contratadas, nem sua boa dedicação e vontade de acertar, dando o melhor, o máximo, que pudessem, tal como faziam em seus próprios países, sempre com apuro e sucesso.

 

Empresas suecas, holandesas, japonesas, americanas, italianas, francesas, todas renomadas, ostentando décadas de trabalho reconhecido. Equipadas com modelos os mais avançados e utilizando a melhor tecnologia e o chamado “estado da arte”.

 

Para começar do zero, talvez, fosse mesmo a melhor saída (ou entrada?). Durante uns 5 anos,  foram comprados pacotes prontos. Os computadores estrangeiros eram os responsáveis pelos cálculos. E nós, baixávamos a cabeça, dizendo amém, aquele velho complexo de colonizados segundo o qual tudo que vem do exterior é melhor.

 

Eu era um recém admitido, engenheiro júnior, e me manifestava entredentes quanto àquela postura, que não me convencia. Eu, em 1970, já comentava que achava aquilo muito esquisito. Acreditava que nós, brasileiros e na própria empresa, faríamos melhor. E mais barato.

 

Pregava no deserto, para ouvidos moucos ou para quem não queria ouvir. Nunca desisti de continuar pregando e dando minha opinião.

 

Soube que, um dia, um especialista americano que dava a assessoria contratada estava deitando cátedra, quando um dos nossos engenheiros (Melcop) fez uma pergunta: por que 6, e não 4 ou 8? Ele não sabia dizer. Sempre usara em seus projetos 6, e não iria arriscar ou mudar nada.

 

Outro exemplo: onde eu trabalhava, havia uma instalação projetada no exterior com previsão de ampliações aos 5 e aos 10 anos. Iria aumentar 20% em cinco anos e mais 30% nos cinco anos seguintes (de menos de 600, subiria para 720 e chegaria a 960 com dez anos).

 

Eu questionava essas previsões. Achava que a bola de cristal estava turva, pois confiava que em cinco anos passaria, pelo menos, para uns 900 e que, em menos de dez anos, deveria estar sendo necessário chegar a uns 1.200 ou 1.500.

 

Eu estava errado. Em 3 anos, passou daqueles 600 iniciais para quase 2.000.

 

O projeto contratado, por exigência do edital, deveria prever ampliações que determinariam, com a tecnologia conhecida e mais atual, a necessidade de novos equipamentos de transmissão, devendo as torres suportarem novas  antenas de microondas. Os holandeses (Philips) fizeram seu projeto de sorte a que a nova antena ficasse 5 m abaixo da primeira. Os italianos (GTE) apostaram que jamais, ou somente muito remotamente, se faria necessária a segunda antena, e instalaram a primeira no limite inferior. Resultado, houve problemas de propagação, reflexão, e eles terminaram tendo que transferir uma repetidora de lugar. Algo semelhante acontecera com os japoneses da NEC, em outro sistema.

 

A verdade é que, até onde sei, a empresa optou por, mais ou menos em 1972, fazer seus próprios projetos, e, inquestionavelmente, os resultados foram melhores, menos equivocados.

 

Por que? Eu escrevi sobre isso (e não encontrei apoio interno para publicar, mas consegui espaço fora). Os programas de computador funcionavam maravilhosamente em padrões conhecidos (economia, demografia, ....) em área já atendida. Digamos, um crescimento vegetativo. Aqui, naquela época, novas fronteiras surgiam do nada, explosões e desenvolvimentos totalmente súbitos e imprevisíveis até para os brasileiros (Rondônia, Mato Grosso, Amazônia como um todo).

 

Ou seja, os projetos estrangeiros se aplicariam ao estado de São Paulo ou para a costa litorânea, mas não para os rincões, que Rondon descobrira e ficara dezenas de anos esquecidos.

 

Vivi outra experiência nos anos 90. Estava eu requisitado para um Ministério quando uma nova tecnologia estava começando. E nos cabia normatizar. Eu, mais uma vez, ousei opinar. Seja porque não interessava que eu expusesse minhas idéias, seja porque, uma vez mais, era mais cômodo não assumir a responsabilidade de decidir (para jogar a culpa depois em outros?), o fato é que não me deram ouvidos. E minhas previsões, outra vez, se confirmaram.

 

Já citei Melcop, que questionara o consultor e o embasbacara (por que 6, e não 4 ou 8?). Também testemunhei as elucubrações de um colega que, teimosamente, pensava o amanhã, o porvir. E, tal como eu fizera em vão, em vão viu seus estudos e sugestões serem mandadas à la poubelle. Claro que essas reações desestimulavam mesmo os mais insistentes, e nos faziam não persistir (nem que fosse para preservar o emprego).

 

Em 1996, aproximadamente, contrataram uma empresa, com seus genioszinhos, para a famosa reengenharia que nos salvaria do atraso e nos poria (de volta) na primeira linha, na vanguarda. Dois anos depois, os brilhantes consultores chegaram muito próximo daquilo que aquele empregado vinha sugerindo havia mais de 10 anos.....   Se bobear, as sugestões dele eram melhores.... neste caso, pelo menos, eu ouvi alguém reconhecer, em voz baixa: mas era isso que Rubí vinha sugerindo há tanto tempo!

 

Não me deram o prazer de dizer isso a meu respeito, não sei se sentem saudades de mim ou se alguém lembra de minhas quixotadas.

  



Escrito por J.Celso às 23h43
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Voltando de passagem...

 

Ora, ora! Recebi uma reclamação de que estou escrevendo pouco neste blog.... é sinal que tenho leitores.

 

Talvez não esteja encontrando inspiração, ou os assuntos sejam os mesmos sobre os quais já me expressei, ou, por fim, nada de novo a merecer maiores comentários.

 

Tenho por costume dizer que fazer alarde por certos temas é falta de assunto. Foi assim quando aquele criança Nardoni morreu em S. Paulo. Concordo que foi revoltante, covarde, principalmente se ficar provado que foi o pai e a madrasta. Porém, na minha opinião, a cobertura televisiva foi abusiva, desmedida, exagerada. Será que não havia mais nada a cobrir?

 

Também não é de meu feitio, por mais que tenha opinião formada, criticar ou condenar sem provas.

 

O governo federal, por exemplo, não está sob o comando de quem eu gostaria que estivesse, ou no rumo que eu imagino que seria o melhor. Mas convivi com os governos militares de 64 a 85. E sobrevivi.

 

Nosso Congresso Nacional, por sua vez, é “um poço até aqui de lama” (parafraseando Chico Buarque – Gota Dágua), embora estejam sempre sendo reeleitos os mesmos. Surpreendo-me quando um não consegue voltar ou permanecer. Isso se aplica a Deputados Estaduais e Vereadores, lógico, em cujas Câmaras bandidos se acobertam com a impunidade parlamentar.

 

Nem mesmo o Judiciário escapa às crises. Hoje, em sessão secreta, o STF vai “julgar” um Ministro do STJ flagrado “no pulo” Suas decisões polêmicas também são confirmadas, pelo espírito de corporativismo, sei lá. OU a mesma medida adotada com um foi estendida a outros. De juízo de primeiro grau à Corte Constitucional, homens falíveis podem errar ou se deixarem “convencer” quanto à decisão a adotar. Suponho que conspurque, e leve ao descrédito potencial, os que se solidarizam com certas medidas estranhas, questionáveis.

 

Afinal, continua havendo muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

 

Uma outra razão para nem sempre me apressar em dar palpites sobre o assunto do momento (crise econômica? Já me manifestei há mais de um ano, prognosticando, quem sabe, o que iria acontecer), é para não queimar a língua. Diariamente, recebo mensagens de amigos. É muito fácil falar mal e criticar. Contudo, eu me pergunto se estou com todos os dados para julgar. Se o processo não está mal instruído. Se as provas são conclusivas ou bastantes.

 

Também já escrevi aqui (em 2006, acho) que um país do tamanho do Brasil tem tantas variedades regionais que os que moramos nas cidades, no chamado Sul Maravilha, nem sempre sabemos das realidades todas. E corremos o risco de acusar precipitadamente.

 

Falo por mim: a pior fase de minha vida pessoal foi entre 1995 e 1998. Ou até 2002. Em 1994, eu ocupava um DAS.5 em troca de R$ 21,00 (isso mesmo, vinte e um reais), era o  tamanho de minha gratificação pelo exercício de um cargo em comissão dos mais altos na administração pública direta. Tanto que não me doeu no bolso deixar de exercê-lo. O que doeu foi a circunstância de ter me tornado persona non grata, pois, parece, não convinha contar com incorruptíveis no poder. E, desgraçadamente, não aprendi a ter preço.

 



Escrito por J.Celso às 14h41
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