Paixões e nem tanto...
Se fui, talvez, precoce em matéria de literatura ou artes (aos 8 anos frequentava saraus e recitais, enquanto aos 12 era sonoplasta, cenógrafo e contrarregra de teatro não escolar), fui um tanto retardado em matéria amorosa. Aos 11 ou 12 anos, tive uma paixonite, que não sei mais explicar, pela irmã de uma atriz de uma peça cujos ensaios eu acompanhava. Não durou muito mais do que o tempo em que esteve em cartaz a peça (Cândida, de Bernard Shaw; meu tio era o ator principal, tendo ganho o prêmio de melhor ator, em um festival no Recife). Somente aos 17 ou 18, fui ter outra paixão, essa já mais amadurecida, por uma moça um pouco mais nova que eu. Desconfio que errei na estratégia de me tornar amigo de seus pais como forma de ir toda noite à casa deles. Não deu resultado, nunca namoramos sequer. De tanto que eu gostava dela, e como seus pais – toda donzela tem um pai que é uma fera -, confiassem inteiramente em mim, acompanhei-a algumas vezes para ela encontrar um namorado que seus pais não aprovavam. Anos mais tarde, apaixonei-me por outra moça. Com essa, cheguei a idealizar um futuro róseo. Também não deu certo, ela achou outro (com quem casou) que foi mais rápido no gatilho. No meu primeiro ano no Recife (1969/70), morei com dois colegas, ambos eméritos paqueradores. E eu me continha. Creio que meu mal maior era ser seletivo. Queria encontrar a amada perfeita, aquela que Deus me reservara e ao lado de quem seria feliz (e a faria feliz). Custou um pouco, mas quando a encontrei, há quase 40 anos, em pouco tempo estávamos noivos, não havia mais tempo a perder, eu já estava com 25 anos. Entremeando essas paixões maiores até encontrar o amor definitivo, decerto, tive alguns namoricos inconsequentes e eventuais. Efêmeros. Que não deixaram saudade. Curiosamente, passei por duas ou três experiências estranhas. Em 1966, por exemplo, conheci uma pessoa simpática e com papo agradável, que era uma espécie de “dama de companhia” de umas moças bem mais atraentes. Um colega e eu, pretendendo nos aproximarmos de duas delas, fizemos amizade com a outra. E trocamos endereços, mantivemos uma correspondência (eu e ela) formal, tendo eu, sem querer (desconfio), abusado na frequencia. Jamais, ao que me lembre, insinuei nada de mais sério. Escrevia por escrever, para aprimorar o estilo epistolar. Um dia, em 1969, fui à cidade onde ela morava e, pelo endereço, localizei seu telefone (era a Maria que está no Céu, pois este era o nome da rua onde ela morava) e disquei perguntando se ela estava. Perguntaram-me quem queria falar com ela. Eu disse meu nome e ouvi como resposta: “ela está em viagem de lua de mel”. Antes que eu manifestasse minha alegria ao sabê-la casada, ouvi ”taí, você bobeou, o cachimbo caiu, ela casou com outro”. Outro caso insólito, foi com uma holandesa que conheci em 1968 em Hilversum. Em um open-house que a Philips promovia toda terça-feira, fazia muito barulho e começamos a trocar poemas (ela era poetisa). Gozado, eu dizia os meus em português, traduza-os para o inglês, e deixava escrito em português. Ela fazia o mesmo, com sua letrinha miúda, escrevendo versos em holandês, que traduzia para o inglês (provavelmente, ainda os tenho, pois guardo muito papel antigo, material que pretendia utilizar algum dia em projetos abandonados). Ao voltar para o Brasil, iniciamos uma correspondência, coisa de uma carta por mês, dando notícias genéricas e, no máximo, lhe enviei um LP com MPB. Quando eu estava para casar, em 1970, mandei-lhe o convite. E, um dia, recebemos um presente vindo pelo correio. E a correspondência acabou ali. Houve um terceiro caso que até hoje me deixa sem entender direito. Conheci uma moça, bem namorável, mas ela me parecia esquiva, fugidia. Desisti, não era de mulher difícil. Um dia, ela me levou o convite de sua formatura (eu ainda era passarinho livre, ainda nem conhecera Evelin). Fui ao baile, e a conversa não passou das generalidades cabíveis na ocasião. Dois meses depois, eu já noivo, recebi outra visita dela na minha sala de trabalho na Embratel. Senti que ela levou um choque ao ver minha mão direita com a aliança. E “nunca mais nos falamos, vai distante”.
Escrito por J.Celso às 20h41
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Momentos revividos
“À vida pedi como quem pede um beijo na face, que ela, a vida, não me negasse.... Passou a vida, não me quis ver... ... Ora morrer! Morrer é a vida de que se nasce.” Em 1966 ou 1967, não me recordo mais, vi o poeta João Lins Caldas pela última vez. Eu estava de férias no Açu – RN, minha cidade natal, e ele ainda se entusiasmava com a possibilidade de publicar-se. Não fazia por menos: queria ter seus versos trilíngues: em português, francês e inglês. Morreu inédito, com sua fama reduzida aos poucos e felizes que tiveram a ventura de conhecê-lo. Preservo originais (autógrafos) dele. Sua psicose o levava a assinar cada poema; se numa página houvesse um dúzia de poemas, seria uma dúzia de assinaturas. A “certeza” de que todos queriam roubar-lhe a obra, para publicar como própria, negando ao autor o mérito e a genialidade. Recordo um professor de Português que tive, no Colégio Rio de Janeiro, em 1961. Um dia, levei-lhe poetas do Rio Grande do Norte que eu admirava e queria dar a conhecer. Um deles era Caldas. E o mestre afastou e frustrou meu ânimo, ao dizer que, se ele não os conhecia, “não podiam ser bons”. O primeiro verso do poemeto acima está sempre presente na minha memória, junto com outro, de outro poeta norte-rio-grandense que admiro, Jorge Fernandes (não me lembro de havê-lo conhecido, mas convivi na infância com sua filha, Alice): “Deus lembrou-se de mim, lembrou-se, Ungindo-me de bondade e de amor! Martirizou-me para tornar-me santo E deu-me asas pra fugir da dor..........” Já disse, mais de uma vez até, que sou nostálgico, o que nem sempre é bom. Há quem diga que é péssimo. Porém não consigo me desligar de meu passado, enquanto não esqueço dele. E, vez por outra, por alguma razão (ou sem razão alguma), voltam-me fatos e pessoas que fizeram parte de minha história. Quase sempre, para mostrar, de novo, que Deus foi, em todos os momentos, muito bom comigo. O beijo que quis roubar e não o fiz; o “sinal” que deixei de avançar; a ilusão dormida e que assim permaneceu; talvez a experiência que me faltou. Tudo a seu tempo, não há necessidade de ter pressa. A verdadeira mulher a ser amada surge no instante próprio, como escreveu Bandeira (Consoada), na hora em que estiver “lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”. Foram as Marias de quem não provei, aquelas que amei em silêncio ou que me faltou coragem para me declarar a tempo.
Escrito por J.Celso às 15h28
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Comentando à-toa, provavelmente
Às vezes, chego a me arrepender de ter e-mail. Se não bastasse, tenho bem meia-dúzia deles, e divulguei-os a todos os amigos, conhecidos, ex-colegas, imaginando que seria uma maneira de nos comunicarmos amiúde. Não pensei que serviriam para o re-encaminhamento “automático” de tanta mensagem. Como o círculo de amigos ou ex-colegas é finito, quase sempre recebo de todos a mesma coisa (cada um que recebe me retransmite, pelo visto), isto é, recebo quatro ou cinco vezes a mesma mensagem. E tome de apagar mensagens repetidas. Porém, antes de apagar, vejo-me levado a ler, para confirmar que é a mesma coisa. Sem falar naqueles que esquecem que já mandou, e mandam de novo. Tenho uma pasta de quase 2 G com arquivos sobre Países. São todos tão lindos, que resolvi salvá-los. Outra pasta, bem menor, guarda arquivos sobre o Brasil. Uma das minhas ocupações é apagar arquivos repetidos (pequenas diferenças no nome bastam para não acusar a pré-existência). E, também acontece chegar um mais compacto ou sonoro, mas com a mesma matéria. Por fim, quanta matéria que não tem (mais) qualquer interesse para mim. Estas são apagadas assim que lidas, como são as correntes. Pra não falar das piadas ou as de conteúdo político, falando mal de um ou de todos. Ou do que não me diz respeito, por valer no Rio ou em São Paulo. Vou viajar dia 20 e volto dia 04 ou 05 de março. Já estou antecipando a tonelada de mensagens que entupirão meus principais 3 ou 4 e-mails, a ponto de não poder receber o que teria importância (por exemplo, o andamento dos processos). – overquota –. Já nem peço que parem, porque a experiência é não adiantar. Em 2000, ia passar 40 dias na Europa e, antes de viajar, IMPLOREI que não me mandassem o que não fosse relevante, explicando o porquê (e-mail, para mim, é ferramenta de trabalho ou de comunicação; não uso para piadas ou discutir assuntos, faço isso no blog). Ao acessar a internet em uma lan house (acho que em Praga) vi que TODOS os meus endereços eletrônicos estavam com suas caixas de entrada lotadérrimas. Se muito, 1% tinha alguma importância (e, provavelmente, nenhuma urgência). Ignoro o que deixei de receber que era relevante e ficou perdido.
Escrito por J.Celso às 20h36
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