Fortaleza revisitada
Voltei no último dia 12 de Fortaleza, cidade que não visitava havia cerca de 15 anos. Foi uma viagem familiar e, sobretudo, sentimental. O tempo todo, desde o dia 08 (sexta-feira), estive em casas de parentes e, principalmente, com eles, exceção feita de uma ida, na tarde da segunda-feira, ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, um espaço preservado e destinado a uma vista interessante. Talvez eu não haja dado sorte de ver tudo, porquanto muita coisa estava fechada (deveria abrir, quem sabe, à noite). Junto a ele, em meio a um planetário, auditórios, cinemas, teatro, espaços multiuso e lojas, existe a Biblioteca Pública Menezes Pimentel, para onde fui em busca de livros do ou sobre Padre Antônio Tomás, o Príncipe dos Poetas Cearenses, falecido em 1941. Descobri um único, de 1950, escrito por uma sobrinha dele. Li que ele deixou como disposição testamentária a proibição de ter sua obra impressa. Se nada mais tivesse acontecido de bom, essa ida à Biblioteca teria valido a viagem. Encontrei o tal livro entre as Obras Raras, depois de procurar entre os poetas e os autores cearenses. Não são as obras completas (ver a vedação acima citada), mas uma homenagem da autora (Dinorá Tomás Ramos) ao tio falecido alguns anos antes. Contém expressiva amostra do que aquele célebre e emérito sonetista nos legou. Avidamente, copiei dois deles, um para corrigir o que a memória traidora me fazia recitar e escrever (aqui mesmo, mais de uma vez, até) com alguns errinhos. Trata-se de seu mais famoso soneto, Contraste. E outro que andava meio esquecido, mas que me veio à mente na hora: O Palhaço era um dos que meu pai recitava sempre (aliás, gravei os dois ao ouvir tantas vezes). “Ontem, via-se-lhe em casa a esposa morta e a filhinha mais nova tão doente! Hoje o empresário vem bater-lhe à porta que a platéia o reclama impaciente. Ao palco em breve surge ... pouco importa o seu pesar àquela estranha gente.... E, ao som das ovações que os ares corta, trejeita, e canta, e ri nervosamente. Aos aplausos da turba ele trabalha para esconder no manto em que se embuça a cruciante angústia que o retalha. No entanto, a dor cruel mais se lhe aguça e, enquanto o lábio trêmulo gargalha, dentro do peito o coração soluça”.
Escrito por J.Celso às 12h54
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