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Ah meus tempos! parte III (final)
Nunca neguei a importância dos governos militares, principalmente dos de Castello e Costa e Silva, para a consolidação da Embratel e o ressurgimento das telecomunicações brasileiras. Deploro, por outro lado, o de Geisel, primeira grande pá de cal no chamado STB. Foi ali que o FNT deixou de ser voltado para o setor, e passou a ser desviado para o dito "fundão" criado pelo Min. Reis Velloso. Além de se proibir o reinvestimento de suas próprias receitas: as operadoras tinham que transferir seus lucros para a holding. Com isso, a Embratel financiava as Telaimas e Telerons, além de cobrir os déficiits de Telerj e outras igualmente mal geridas. Pode-se constatar, nos Orçamentos Gerais da União (OGU), que as dotações consignadas (ou seja, a aplicação de verba pública anual) eram ZERO, em todos os anos, de 1975 a 1997, quando parei de acompanhar. Uma noite, na Câmara dos Deputados (o deputado gaúcho Ibsen Pinheiro era seu então presidente), na inauguração de um stand da Embratel, presentes seus diretores, comentei esse fato de o setor não depender de verba pública orçamentária. Ibsen Pinheiro olhou meio de lado como quem se surpreendia com aquela minha afirmativa. E eu fui rapidamente afastado, levado pra longe, pois não se podia confiar no que eu pudesse pensar ou dizer a mais, e que não lhes convinha. Em 1980, elaborei um texto e o propus para ser apresentado no Intelcom 80-Rio. A diretoria da Embratel não deixou que eu o apresentasse no Rio, em maio, e os organizadores do evento me pediram autorização para incluí-lo no evento seguinte, em novembro (Los Angeles). Ao qual, obviamente, não fui autorizado a comparecer (menos uma dívida de gratidão). Naquele texto, eu contei a história das telecomunicações no Brasil desde D. Pedro II, destacando o pioneirismo mundial em muitos setores - radiodifusão, inclusive -, a crise vivida durante cerca de 30 ou 40 anos de acomodação e retrocesso / estagnação (durante esse tempo, eram os militares que se destacavam até na CTB) e o renascimento a partir de 1965, descrevendo a epopéia da construção do SNT de que, com orgulho, fiz parte, atolando em muita lama e engolindo muita poeira.
Resumindo, a (re)privatização das empresas de telecomunicações em 1998, governo FHC, foi uma medida política que não trouxe maiores vantagens do que as que se poderia obter, simplesmente, voltando ao status quo ante 1974. Mas pode ter enchido o bolso de muita gente que nada entendia de telecomunicações e, por outro lado, dos aproveitadores de sempre, aqueles que chamo de proxenetas das telecomunicações brasileiras. Não sei se é verdade, mas ouvi dizer, em 1998 ou 1999, que o presidente da Telefonica recebia 180 mil reais por mês de salário. Arre égua!!!
Escrito por J.Celso às 20h24
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Meu tempo, parte II
Um dos meus últimos chefes na Embratel, e disparadamente o pior que tive, disse (não sei se soltou sem querer ou queria mesmo dar o recado) que minha experiência na UIT / CCITT - e o prestígio adquirido com isso, notadamente perante a Telebrás - me fazia indesejável.
Que eu fosse procurar novos caminhos, pois eu não tinha como permanecer na divisão de engenharia que ele chefiava. Tirou-me todos os encargos que as chefias anteriores ma haviam confiado ou atribuído, quase me leva à loucura com o ócio, regozijou-se com minha saída. É que eu estava escrevendo muitos textos técnicos (que eram aceitos e publicados, davam retorno e, para alguns, me transformavam em especialista) e sendo convidado a proferir palestras ou coordenar grupos de trabalho, em abrangência cada vez maior. Integrava grupos de trabalho por correspondência no CCITT, a convite. Recebia muitas mensagens (não havia e–mail, ou não era ainda tão popular – eu não tinha nenhum) via fax, sendo chamado a participar de eventos nacionais e internacionais, pondo em xeque a sagrada lei do "santo de casa não faz milagre". Mais de uma vez, recebia ligações de Genebra ou outras origens. Era autorizado a fazer ligações telefônicas internacionais e também a mandar telex internacionais, coisas que, acho, nem o Sup CO podia fazer (havia disso sim). Eu procurava não me vangloriar ou abusar, restringindo-me ao mínimo, ou a receber os telefonemas. Para retornar, quando necessário, ia ao prédio da Telebrás, onde a vigilância e o despeito / inveja não eram tão ostensivos.
No momento em que a Telebrás me indicou para ser o coordenador técnico de um seminário internacional realizado em Brasília (CNTr-TB, 1991) - en passant. a partir de uma sugestão minha, aproveitando que estariam aqui algumas das mais importantes autoridades do SG XII / CCITT), também em decorrência de uma idéia que tive em Genebra, durante uma reunião daquele grupo de estudos, prontamente apoiada pela TB e, pasme, pelo Diretor Geral do CCITT, Mr. Theodor. Irmer - passei a correr o risco ou a ser o risco.
Em tempo: o evento transcorreu com absoluto êxito, reconhecido por todos (ingleses, franceses, italianos, o pessoal da UIT - nenhum suíço -, .....), e dele lembro-me do sucesso que foi uma apresentação do colega José Luiz Lobo Rodrigues, a quem convidei de improviso, numa emergência..
Um dos principais engenheiros presentes, Mr. Giorgy Lajtha (húngaro) antigo chairman do SpC (ou teria sido do SpD?) e do SG XVI, citou meu nome em artigo que publicou sobre o evento - disse ele que eu fora a principal razão do êxito alcançado. Exagero, gentileza ou gratidão.
Claro que subiu a inveja onde já existia, e surgiu onde ainda faltava.
O texto do Virgílio, alguém me mandou há umas duas ou três semanas (acho que Adalberto Castello Branco). Há alguns senões ou erros dele, por exemplo:
"5. Quando entrei para a Telesp, o Brasil todo tinha 3 sistemas de micro-ondas – um ligando o Rio a São Paulo, outro ligando São Paulo a Campinas e um terceiro ligando o Rio a Brasília.” Virgílio fora engenheiro da Embratel em 1969 ou 1970, e diz no item 4 "Quando entrei na Telesp, subsidiária da Telebrás em São Paulo, em 1973....". Ora, naquela época (1973), a Embratel já implantara praticamente toda sua malha básica terrestre do Sistema Nacional de Telecomunicações (SNT), e já existia o cabo submarino Bracan, por exemplo.
No item 6, Virgílio Freire comete outro pequeno deslize. O FNT – Fundo Nacional de Telecomunicações foi criado quando da aprovação do Código Brasileiro de Telecomunicações, art. 51. da Lei nº. 4.117/1962 (governo João Goulart|), que também criou o Contel – Conselho Nacional de Telecomunicações e, creio, o Dentel – Departamento Nacional de Telecomunicações (para servir como Secretaria Executiva do Contel, art. 25 daquela lei).
Escrito por J.Celso às 20h17
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As telecomunicações brasileiras e meu tempo nelas - parte I
Um tanto inexplicavelmente, o pessoal das telecomunicações sempre foi do tipo “técnico puro”, e são raros aqueles que vêm a público dizer o que pensam ou como pensam. Ocorrem-me, no momento, alguns que abraçaram a carreira política: Arolde de Oliveira (dizem que mais pelo eleitorado evangélico), Jorge Bittar e Walter Pinheiro. Pode ser que haja outros. Isso pode ser ainda mais um resquício dos governos militares, quando a maior credencial para assumir cargos de direção era ter vestido a farda, e eles são rigorosos na obediência à hierarquia, na base do “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Passando para a “reserva”, ficam na moita. Não se vê, amiúde, pronunciamentos de quem foi autoridade naqueles tempos. Recentemente, contudo, andou circulando pela internet (recebi de umas três ou quatro pessoas) um “manifesto” do Gilberto G. Garbi e agora outro do Virgilio Freire. Não sei se sou mais suspeito, ou menos, do que Virgilio, por exemplo, para dar pitacos.
Ainda enquanto na ativa (antes de me aposentar e dar baixa no Crea), e mesmo antecipando-me à concorrência (que eu entendia benéfica), preguei no deserto a favor de outro modus faciendi, da Embratel em particular, que afastasse, mais que qualquer outra coisa, a prática de endeusar ou entronizar pessoas menos capacitadas, para não fazerem sombra ou ameaçarem o comando dos de sempre.
Em vigor, o emprego da chamada Lei de Parkinson.
O exemplo vinha de cima, e alguns que não tinham competência (no sentido de saber fazer) para muita coisa, eram escolhidos para os postos de chefia.
Será que ali atrapalhariam menos? não creio que fosse esse o objetivo, pelo menos na maioria dos casos, podendo ser apenas nos das exceções que confirmavam a regra.
Nós, os mais antigos, conhecemos dezenas de casos. Não vou citar nenhum nome. Fomos subordinados a diversos deles. No começo, anos 60 e começo dos 70, ser militar era a credencial bastante. Ou o requisito essencial. Ninguém mais merecia confiança.
Com isso, muitos profissionais “civis”, por maior que fosse a capacidade, iam ficando encobertos, postos para escanteio, impedidos de aparecer, pois poderiam, inesperada e indesejavelmente, brilhar, se destacar, ser parâmetro ou paradigma, referencial. Para um “paisano” ocupar a chefia de um departamento, ser assessor de diretoria e, principalmente, ser diretor, era necessário que fosse quase uma besta batizada, ou servil.
Também conheci (e acho que todos conhecemos) algumas centenas desses. Decerto, também houve exceções que confirmavam a regra: Luciano Bezerra, Arakawa, Marco Aurélio, ... (quem sabe, se contem na palma de UMA mão).
Talvez nem fosse o caso de se promover os puxa-sacos ou os carreiristas, aqueles que seriam capazes de dar os dois braços ou entregar a mãe por um espaço privilegiado . Bastava ser claramente um medíocre, um sem futuro, sem maior ambição.
Testemunhei situações em que a regra era "não se corram riscos" Um conhecido, a posteriori, relatou uma discussão na diretoria a que esteve presente, enquanto era assessor e estava interinamente atuando como diretor. Desconfio que eu passei por tais situações.
Escrito por J.Celso às 20h09
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