Uma experiência nova
Acostumado (mal?) à assistência médica dos convênios de Embratel, Amap, Pame e Plan-Assiste (em Brasília e Rio de Janeiro, pelo menos; um pouco em BH e Sampa), presenciei a realidade da saúde pública em um Pronto Socorro de Serra-ES, ali permanecendo como acompanhante de um cunhado durante 4 dias – de 5ª a domingo. Registro, inicialmente, que, apesar dos pesares (que abordarei a seguir), ali se pratica um medicina bem razoável, acima daquela que os noticiários tanto criticam e denunciam. Não vi, por exemplo, falta de material ou de medicamentos. Também havia pessoal em número suficiente. O Hospital Dório Silva pode nem ser uma referência, porém acolhe e acode a população que não conte com plano de saúde. Vi sua sala de recepção sempre bastante cheia, o que não significa falta de atendimento. Uma primeira sala faz a triagem e define o grau de risco, que vai até o vermelho – risco de vida iminente - passando pelo amarelo e o verde (não me lembro da cor do risco mínimo). Quando ali cheguei, na tarde da quinta-feira, meu cunhado estava no grau amarelo, em uma Emergência, medicado e monitorado (aparelhos modernos), recebendo duas visitas por vez, das 15 às 17h00 e das 20h00 às 22h00. Era um box individual (havia 6) suficientemente limpo e até algo espaçoso, cabendo uma mesa ou duas para os pertences do doente ou de suas visitas eventuais (claro que não havia acompanhante naquele ambiente). Já fora submetido a duas ou três hemodiálises, a exames de Raios-X, sangue, tomografia, e o que mais pudesse ser requerido para formar o diagnóstico. Na sexta-feira, foi transferido para uma enfermaria que chamam de Ala – são duas contíguas, A e B, originalmente imaginadas para servirem, separadamente, a homens e mulheres (utopia que, pelo visto, não prosperou; ele era o único homem entre 7 mulheres; outros 8 doentes estavam na Ala ao lado). A comida é servida pontualmente, a cada três hora, aproximadamente, e uma Assistente Social passa de manhã fornecendo tíquetes para almoço e jantar dos acompanhantes de quem seja idoso (caso dele). E à noite vem um lanche para doentes e acompanhantes, às 22h00. Nas Alas, cada doente pode ter um acompanhante, podendo se processar a troca desse às 08h00, às 14h00 e às 20h00. Há certo rigor no controle dessas trocas bem como no horário delas. Certamente, ali estão pessoas que aguardam cirurgia, melhora nas condições clínicas para receber alta ou ser transferido para um terceiro ambiente, que chamam de “quarto”. Há também doentes crônicos e até terminais. Não se pode propriamente dizer que a assepsia ou a limpeza seja a ideal. Também pela quantidade de transeuntes, acompanhantes, de várias classes e hábitos. Maridos, filhos, irmãos, amigos, se revezam na tarefa. E existe quem se alugue como acompanhante em troca de algum trocado. Merece reconhecimento a dedicação de médicos e enfermeiros / atendentes. Testemunhei, com surpresa, duas turmas de alunos de uma Escola Técnica (Curso de Técnico de Enfermagem) orientados por um Professor – Enfermeiro – dando plantão aos sábados e domingos, em aulas práticas, metendo a mão na massa, fazendo curativos, dando a medicação prescrita, trocando lençóis e dando banho nos internados. Aprendendo o ofício, por assim dizer (training in job). Não sei se o curso dura 2 ou 3 anos, nem tive a curiosidade de procurar saber se alguns deles eram “formandos” ou “calouros”, mas deu pra desconfiar pela iniciativa de uns e a postura de outros – vi muito mais moças do que rapazes, na proporção de 6 pra 1 – que ficavam meio que só olhando, de mãos pra trás. O Professor do domingo, diferentemente do de sábado, dava uma “aula”, ensinado e ajudando; o da véspera ficava só observando e anotando – eu comentei que ficava só tirando ponto. Lembrei-me da primeira vez que fui a uma estação de telefonia, CTB-Rio, com Ludendorf Nicodemos, em 1968 (eu recém-admitido na Embratel) conhecer uma Mesa de Exame de Linha: éramos uns 10, e todos com as mãos pra trás, sem encostar em nada, com medo, talvez, de causar distúrbio. Notei, ainda, um descontrole (ou falta de) no tocante ao consumo de material, que fica à disposição em cima de carrinhos. Sobre luvas cirúrgicas, achei até um esbanjamento, pois certos acompanhantes gastam dois pares para amarrar lençois, o que eu fiz simplesmente com um nó. Porém a cada momento vi pessoas consumindo álcool (calma: para limpar as mãos) e, a meu ver, o principal ponto falho é a presença de latões de lixo onde todo tipo de resíduo é jogado, do lixo que estava no chão a resto de comida ou de curativos. O esvaziamento, pelo que vi, acontece uma vez por dia, pela manhã. Com alta possibilidade de infecções hospitalares, seja pela condição de cada acompanhante – dos quais não se exige ou requer qualquer cuidado na higiene ao entrar (muitos estão de sandálias havaianas e vieram da rua) seja pela convivência com esse lixo a meio metro de cada leito – a propósito, dos 8 da ala em que fiquei, não havia dois sequer iguais, a indicar que foram sobras ou remanejamentos. .
Escrito por J.Celso às 11h51
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